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Político x trabalhador

Doutor Isaac Tayah, o médico que se tornou vereador por opção, na semana passada quis comparar – de forma cínica – o parlamentar ao trabalhador. Presidente da Câmara Municipal de Manaus, onde exerce o quarto mandato, Tayah, para defender o privilégio do auxílio-paletó, disse que o vereador – coitado – não tem direitos, como o trabalhador, a benefícios como o 13º salário e férias, e que o auxílio seria uma compensação.

Pois bem, doutor Tayah, vamos aos fatos. O tal auxílio-paletó compensatório é o pagamento de um salário de vereador (R$ 9,2 mil, sem desconto de INSS ou Imposto de Renda) pago uma vez por ano – na Assembleia Legislativa são dois salários de R$ 20 mil ao ano, um escândalo em dose dupla. O trabalhador, cujo salário médio em Manaus é de 3,5 salários mínimos (R$ 2.117, sem descontos, de acordo com o Caged/IBGE), tem direito, sim a 13º salário e férias, no valor de seu salário, e só. Com esse dinheiro, ele sustenta a família, paga escola para os filhos (porque confia muito pouco na qualidade do ensino público, responsabilidade dos parlamentares, também), paga o ônibus ou o combustível do carro, compra roupas para ele e para a família, paga as contas de telefone celular e convencional… E para a maioria dos trabalhadores, não sobra nada para ir a um restaurante nem nos fins de semana.

E os vereadores, como vivem? Primeiro, não é verdade que não têm direito a 13º salário e férias, pelo contrário. O auxílio-paletó também é chamado de 14º (na ALE é 14º e 15º) exatamente porque os palamentares já recebem o 13º. Férias, não são apenas de 30 dias, como as do trabalhador. São dois períodos, no fim e no meio do ano, perfazendo 50 dias, para uma turma que é obrigada a trabalhar apenas três dias por semana (nove horas semanais), enquanto a trabalhador é obrigado a 40 horas. Os vereadores, sem direitos, segundo o doutor Tayah, podem ressarcir despesas com alimentação até o limite de R$ 2 mil. Para abastecer seus carros, podem gastar até R$ 4 mil por mês. Frequentam os restaurantes mais finos de Manaus, tomam vinho das melhores safras, sem tirar um centavo do salário. A maioria torra todos os meses R$ 4 mil com combustível, enquanto o trabalhador sapateia para conseguir R$ 400 para abastecer seu carro velho. A conta do celular também pode ser paga pela CMM.

Não dá para comparar! Não dá, doutor Tayah!

Vamos à Assembleia. O auxílio-paletó tem sido motivo de embates acalorados, porque a maioria não quer perder mamata (R$ 40 mil para comprar roupas, mas que são usados também para outros fins, como viagens). Este ano, cada deputado tem R$ 38,4 mil para gastar à vontade com telefone e R$ 274,5 mil para viagens, alugel de carros, frete de aviões e um montão de coisas.

E quando querem viajar, o erário tudo banca. O presidente da ALE, por exemplo, vai à Espanha, no próximo mês, receber um prêmio pela belíssima gestão de pouco mais de um ano. Só a participação no evento custa R$ 6 mil. A Casa já disponibilizou para as diárias R$ 15,9 mil. As passagens mais baratas custam R$ 2,5 mil.

De todo esse espetáculo, o trabalhador só participa pagando impostos para sustentar a farra no andar de cima.

  1. Cleber Oliveira says:

    Como médico, a esperança é que o doutor Tayah não dê a seus pacientes o tratamento que dá a seus eleitores como político. Ao desprezá-los como trabalhadores, despreza-os também como eleitores.
    Lamentável a postura do presidente da CMM, que como bom médico pensa como mau político.

  2. Raimundo says:

    Acredito que o vereador, seria mais útil a sociedade, se fosse exercer sua função de médico em algum hospital público,uma vez que como vereador deixa muito a desejar.

  3. Junieli says:

    E engraçado o fato de na CF estar escrito que os candidatos eleitos pelo povo, deveriam lutar para acabar com a desigualdade social, como é que vão acabar com a desigualdade social, quando botam seus próprios salários exuberadamente maiores do que o do “povão” propriamente dito?
    desse jeito o Brasil não vai pra frente!

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