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Sonhos que se vão
“Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?”
A frase de Renato Russo me faz lembrar o auge da minha juventude, entre 18 e 25 anos, quando, com uma turma grande de jovens, sonhávamos com um mundo melhor. Tratava-se de uma utopia que boa parte dos jovens da minha geração tinha. Ninguém estava conformado com o ‘sistema’. Havia um sentimento revolucionário em cada coração. Nos reuníamos para avaliar a conjuntura, medir nossas forças, planejar o futuro. Um futuro que não considerava o individual, mas o coletivo; um mundo melhor para todos: crianças, jovens, adultos e velhos.
Aqueles jovens estavam preocupados com o futuro da Nação, observavam os passos dos governantes, discutiam política, criticavam os políticos. Alguns sonhavam em ser políticos, porque imaginavam ser impossível um futuro melhor sem homens honestos e dispostos a mudar o mundo. Embalados pela mensagem do Evangelho e pela Teologia da Libertação (de orientação Marxista), pensavam em fazer a revolução pela educação e pela formação política dos jovens. Eram jovens de pé no chão, consumidores mas não consumistas desorientados; gostavam de namorar e pensavam em ter uma família. Mas queriam mesmo era mudar o mundo.
Passados 20 anos, aquela juventude envelheceu e foi sucedida por outras que cada vez mais individualizaram os sonhos. Muitos deixaram de sonhar. Parte daqueles jovens casou e outra isolou-se no seu próprio mundo. Os que vieram depois trilharam outros caminhos, bons e ruins. Muitos se afogaram nas drogas ilícitas (sim, porque aquela geração também consumia drogas, mas as comprava nos bares e consumia aos olhos de todos – claro que havia exceções).
Recentemente, encontrei um daqueles jovens em um município do interior do Estado. Trabalhava em uma emissora de rádio. Tinha, portanto, uma ferramenta poderosa nas mãos. A rádio pertencia à Igreja Católica, o berço da utopia daquela geração. Mas aquele jovem havia deixado de sonhar. Estava preocupado apenas em manter seu emprego e garantir o sustento da família. Faltava-lhe coragem até para dar uma informação sobre os políticos e a política local. Não queria comprometer-se. O encontro durou poucos minutos. Já não era o mesmo jovem de outrora. Foi então que a música de Renato Russo passou a martelar minha cabeça. “Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo. Quem roubou nossa coragem?”.
Outro jovem daquela geração que tornou-se político foi a grande decepção para todos que o conheciam.
A maioria não conseguiu entender o que era utopia. Naquela época havia um conceito de que a utopia era algo inatingível ou inalcançável. Acho que aqueles amigos aceitaram tal conceito e desistiram de sonhar, por achar que não valia a pena. Entregaram os pontos e decidiram apenas manterem-se vivos. Eu prefiro manter a utopia, mesmo com o mundo desabando sobre nós, porque para mim a utopia é um sonho que alimenta a caminhada na busca do novo, da felicidade e da justiça. Desistir desse sonho e aceitar a balela de que sonhar é um delírio da juventude que não se pode preservar na vida adulta é desistir de viver.
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perfildoautor
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Jornalista, com mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia (Ufam). Trabalha no DIÁRIO DO AMAZONAS desde 2003, atuando como repórter de Cidade e Política e como articulista. Atualmente exerce a função de editor de política e opinião do jornal.
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Eu diria que hoje muitos jovens têm vergonha de ser utópicos. Acredite ou não, esforçar-se para fazer desse mundo um lugar melhor é se tornar motivo de chacota pra muitos, o que desestimula adolescentes numa fase crucial da vida. Sobra gente pra fazer o contrário e atrapalhar, falta gente com coragem pra mudar o mundo.
Excelente texto e tema, Valmir. Muito bom.