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Presente de Natal

“Daquele tempo de menino, ainda tenho no peito muita saudade”, diz a música de Chico da Silva. Neste tempo de Natal, me vem à lembrança a infância em que ganhávamos, eu e meus irmãos e irmãs, brinquedos simples, como os carrinhos de plástico ou revólveres de espoleta. É! O agora ‘proibido’ revólver de espoleta, era presente comum numa época em que a televisão mostrava Daniel Boone matando índios e “brancos” inimigos com seu rifle.

Meu pai ganhava o suficiente para o alimento, a roupa e a higiene da família. Não sobrava nada do dinheiro da semana. Mas ele sempre dava um jeito de comprar roupa nova e presente para todos os filhos, oito filhos. Nada de Papai Noel. Não foi em casa que conheci Papai Noel. A TV foi que nos apresentou o velho inútil. Útil, mesmo, era meu pai que fazia o milagre da multiplicação do 13º salário (quando havia) e comprava os presentes e a refeição da noite de Natal.

Os presentes só eram entregues na manhã do dia 25. Isso nos obrigava a dormir cedo para cedo acordar. Meu pai era madrugador, levantava às 5h mesmo aos domingos e feriados. Às 7h, todos já estavam com seus presentes. E cedo ganhávamos a rua (um beco sem alfalto, com muita areia que descia com as chuvas). Os que ganhavam carrinhos, faziam verdadeiras obras de arte no chão, ornando as pistas para o tráfego com tração humana. E era assim: cada criança amarrava um barbante ou um pedaço de linha de costura no carrinho e saia a puxá-lo. Eram muitos meninos, que esqueciam tudo, até de comer naquele dia, para desfilar com seu brinquedo novo.

Desse tempo, no entanto, a lição que nunca me saiu da cabeça é a do esforço dos pais em cumprir um ritual com simplicidade e humildade. Não havia, pelo menos no nosso mundinho do beco, entidade filantrópica ou governo distribuindo presentes. O presente era fruto do esforço de pessoas que amavam suas crianças. E isso dava sentido ao Natal.

É claro que existia a mesma pressão da mídia e da socidade para o cumprimento de um ritual distorcido de sentido, com presentes caros que toda criança gostaria de ganhar. Mas aqueles pais, conscientes de sua situação, não caiam nas armadilhas. Não se individavam para cumprir o ritual imposto para a época.

Era um momento em que, inconscientemente, os pais reproduziam o espírito do verdadeiro Natal, a origem de tudo, atualmente esquecida na sociedade do consumo exacerbado. Ora, o Natal, como o próprio nome sugere, nasce para comemorar o nascimento do menino Deus, que nasceu numa estribaria, que recebeu a visita de um pastor de ovelhas e foi aquecido pelo bafo dos animais e pelo colo da mãe. O melhor presente foi ofertado por um rei (o ouro). Ao pastor, bastou a presença.

O presente é um símbolo do Natal, mas cada um oferece aquilo que lhe é possível. Muito mais do que o presente, vale o abraço sincero. E essa é uma prática que está sendo deixada de lado até no beco onde cresci. O momento do abraço era o mais esperado. Enquanto os fogos anunciavam a chegada do Natal, aquela gente se abraçava com uma sinceridade que poderia durar alguns segundos, mas valia a pena.

  1. SOLANGE NEGREIROS says:

    Belíssimo texto e muitas saudades do tempo da inocência.

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perfildoautor

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