quarta 19 junho 2013 . 01:13 . Atualizado às 23:06

Fair

O tempo
hoje em
Manaus,
26ºC

Taqui Pra Ti

O blog do professor Ribamar Bessa Freire

RSS
Taqui Pra Ti » Crônicas

O colecionador de jornais

Ninguém jamais saberá por que o velho Edmundo Busby colecionava jornais, nem exatamente quando essa mania começou. O certo é que, em vez de descartá-los depois de lidos, como todo mundo faz, ele os guardava, empilhados, nos cômodos de sua casa no Beco da Indústria, 135, bairro de Aparecida. Fez isso diariamente, religiosamente, durante algumas décadas. Quando morreu, no final dos anos 50, na casa entulhada não havia espaço nem para o caixão. Uma vizinha caridosa, dona Fanchete, que morava em frente, organizou o velório e sugeriu que o defunto fosse deitado sobre pilhas de jornais. Um deles que lhe serviu de mortalha era um exemplar raro do The Porto Velho Times, de 1909, que circulou em Porto Velho de Santo Antônio.

Este exemplar chegou às mãos de Edmundo Busby em Guajará Mirim (Rondônia), onde ele vivia, depois de deixar Barbados, sua terra natal, no início do século XX, numa corrente migratória que envolveu milhares de operários. Todos eles foram recrutados para a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Eram os barbadianos - termo genérico que na Amazônia identificava os negros de qualquer uma das colônias inglesas do Caribe. Era entre eles que circulava o Times de Porto Velho, impresso no meio da floresta, em inglês.

O exemplar do Times caboco veio na bagagem de Edmundo, quando a crise da borracha expulsou-o para Manaus, juntamente com seu irmão Henry. O coração de colecionador já pulsava, então, no peito do velho Ed, que não teve coragem ou vontade de descartá-lo. Foi aí que os irmãos Busby se instalaram com mala e cuia naquela casa humilde de madeira, coberta de zinco, com chão de terra batida, que lhes teria sido cedida, em 1917, pelo então governador Jônatas Pedrosa. Ela abrigou o primeiro exemplar da coleção de jornais.

Era uma casa escura, permanentemente fechada, tinha a cara e a cor da pele dos seus donos. Com o tempo, o uso diário do fogareiro de carvão deixou o teto enegrecido e a parede tisnada pela fuligem, o que não incomodava ninguém, porque a casa não acolhia visitas de amigos ou parentes. Os ferrolhos das duas janelas nunca se abriram para deixar entrar um raio de sol ou para arejar seus cômodos, nenhuma saia jamais cruzou a soleira da porta, nenhuma fêmea despiu seu sutiã no quarto daqueles dois celibatários. O único beijo que soou naquele ambiente foi um estalo onomatopeico simulado entre os atores locais Jerusa Mustafa e Jaime Rebelo, transmitido por uma radionovela criada por Alfredo Fernandes. A vida só entrava ali através dos jornais e do rádio.

O Coffee e o Milk

Discretos e misteriosos, os dois irmãos viviam isolados do mundo, sem a alegria de uma mulher, de uma criança ou de um amigo, mergulhados em extrema solidão, com raros contatos até mesmo com os vizinhos com quem compartilhavam a mesma parede no Beco da Bosta. De um lado, no n° 133, seu Arlindo e dona Luzia que tinham duas filhas, Cleide e Cléa. De outro, no n° 137,  morava minha família. As brechas das tábuas de madeira tinham sido cobertas por jornais, mas às vezes podíamos ver através delas, com certa dificuldade, as sombras dos dois irmãos arrastando os pés, de manhã cedo, até o quintal para ir dar milho às galinhas.

O que víamos era pouco, mas ouvíamos tudo: os pigarros, as tosses, os flatos, os banhos de cuia com água do camburão, as sonoras mijadas na madrugada, a dispneia ofegante e até o silêncio. Acompanhávamos a Rádio Baré, sintonizada o dia inteiro pelos irmãos Busby, com música, informação, avisos para os cabocos do interior, pedidos e encomendas. Lembro  de um jingle com a musiquinha: “Martini, Martini, Martiiiiini! Vermute sensá-cional! Rá, rá! Martini, Martini, Martiiiiini, a marca mundial!”. Toda vez que tocava, o velho Edmundo rompia o silêncio, acompanhando o grito de “rá-rá” depois da paradinha do “sensá-cional“.

Sensacional eram os apelidos. A dupla de irmãos ficou conhecida como Cófi e Milque por causa da cor da pele de cada um. Ambos eram negros, mas a pele do Coffee permanecera negra, de um negro tão retinto que azulava. Já o seu irmão passou a ser chamado de Milk depois que, em contato com a hidroquinona da borracha, no rio Abunã, contraiu o vitiligo, que embranqueceu sua pele, despigmentando-a por falta de melanina, deixando-a coberta de manchas brancas, de diferentes tamanhos que se espalharam por todo o corpo: braços, pernas, cotovelos, joelhos. Era um Michael Jackson avant la lettre. Os moleques do bairro, que acompanharam o processo de desbotamento, preferiam chamá-lo de  “Descascado”.

Edmundo, o Cófi e  Henry, o Milque ou  “Descascado” andavam sempre vestidos com a mesma roupa: uma jaqueta de brim azul, com golinha arredondada tipo Mao-Tse-Tung. Parecia até farda. A forma como eles sobreviviam continuava a ser um mistério, ora diziam que tinham uma minguada aposentadoria, ora que recebiam pequena pensão enviada mensalmente de Barbados. Eram, efetivamente, sobreviventes de uma guerra na selva que matou mais de 7 mil barbadianos, vítimas de doenças tropicais, malária, febre amarela e hepatite e se mais não matou foi graças ao sanitarista Oswaldo Cruz, que saneou os canteiros de obras.

Diariamente, Edmundo Busby, o Cófi, passava pela Santa Casa de Misericórdia, e recolhia exemplares dos jornais do dia anterior: O Jornal e o vespertino Diário da Tarde da família Archer Pinto, o Jornal do Commércio fundado por Rocha dos Santos e A Crítica de Umberto Calderaro. Sem dinheiro para comprá-los, lia os jornais sempre com um dia de atraso e depois empilhava-os sobre estrados improvisados de madeira, de forma organizada e metódica, sem misturar os títulos, classificando-os por ordem cronológica. Assim, parecia querer aprisionar entre as quatro paredes de sua casa acontecimentos de Manaus, do Amazonas, do Brasil, do mundo.

Meu brotinho

A única vez que entrei naquele castelo de papel foi quando o Coffee ficou sem o Milk, que  morreu deixando o irmão mais velho afogado num poço de tristeza. Eu era um moleque de 7 ou 8 anos, talvez  9, por aí, estava jogando bola na rua. Fazia uma semana da morte do “Descascado”. O velho Edmundo, tristonho, me chamou da porta de sua casa, se queixou que estava muito doente, não podia sair, e me pediu o favor de ir até a taberna do Seu Thomaz buscar – assim mesmo – o “remedinho” dele. Deixaria a porta aberta, para que eu entrasse com o remédio.

Fiz o que pediu. Levei uma caneca de alumínio e dei o recado à dona Maria do Seu Thomaz. Ela já sabia do que se tratava. Derramou dentro da caneca o líquido de uma garrafa – a memória é traiçoeira – não sei se era Martini, vermute sensá-cional, rá-rá, ou o concorrente Cinzano, cujo jingle tocado pela Rádio Baré recomendava: “Sim, sim, Cinzano, Cinzano sempre faz bem, muito bem, Cinzano agrada ao paladar, em se tratando de vermute eu não me engano, em quero Cinzano, eu bebo Cinzano”.

Entrei na casa sombria, com um certo medo. O velho Edmundo, que morreria meses depois, estava prostrado em uma rede de tucum. Era lá que ele passava o dia, ouvindo a Rádio Baré e folheando os jornais. Bebeu o martini – ou foi cinzano? – de uma talagada só. Deu uma cusparada. Foi aí que meus olhos, estupefatos, contemplaram a maior hemeroteca que o Amazonas já teve. O velho colecionador estava literalmente sitiado por uma muralha de papel, eram pilhas e pilhas de jornais, que subiam do chão até o teto, tomando conta da casa, da sala, do quarto, da cozinha e até do pequeno banheiro.

Há quem considere que acumular e guardar objetos descartáveis é uma doença, uma incapacidade de se desfazer das coisas velhas e inúteis. Tem gente que guarda escova de dente usada, prego e parafuso velho, lâmpada queimada, guarda-chuva quebrado, caneta sem tinta, garrafa vazia, rolha de garrafa e até aquele aramezinho de pão de forma. Dizem os entendidos que qualquer coleção tem o poder de representar o indivíduo, ligando-o ao mundo que o cerca. Desta forma, no ato de colecionar coisas, colecionamos a nós mesmos.

No caso da hemeroteca do velho Edmundo,  o que ela queria dizer sobre ele? Qual a sua   funcionalidade? Com que regularidade ele a consultava? O que é que ele buscava nos jornais antigos? As perguntas são pertinentes porque parece até que ele queria guardar o infinito entre as quatro paredes da casa escura, aprisionando o tempo escondido naqueles velhos papéis que testemunharam parte da História do século XX.

De qualquer forma, aqueles velhos jornais teriam desaparecido sem deixar vestígios, se tivessem embrulhado peixe na feira. Seu destino final seria a lata de lixo. Mas estavam ali, lutando contra o mofo, o bolor e outros fungos, resistindo à morte, como o velho Edmundo Busby que deixou uma enorme responsabilidade sobre meus ombros: se eu não escrever sobre ele e sua coleção, ninguém jamais saberá que ele passou pelo planeta terra.

A memória é traiçoeira, mas lembro que a minha visita à hemeroteca do velho Edmundo se deu num carnaval no final da década de 1950. Sei que foi num carnaval, porque na hora em que eu saía do castelo de papel, a Rádio Baré tocava uma marchinha do Luiz Gonzaga que fez sucesso na época. Mais de meio século depois, continuo ainda ouvindo a voz do cantor Francisco Carlos:

-”Ai, ai, Brotinho / Não cresça meu brotinho / E nem murche como a flor / ai, ai brotinho / Eu sou um galho velho / mas eu quero o teu amor / Meu brotinho / por favor, não cresça (bis)  / já é grande o cipoal / Veja só que galharia seca / tá pegando fogo no meu carnaval”.

A hemeroteca do velho Edmundo murchou como uma flor. Quando ele morreu, tocaram fogo em parte dos jornais; outra parte teria sido incorporada à hemeroteca do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA).

The Porto Velho Times

P.S. – Agradecimentos: 1) À  Regina Nakamura, que me ajudou a lembrar o velho Edmundo; 2) À minha colega, doutora Leila Beatriz Ribeiro, do Programa de Pós-Graduação em Memória Social, da UNIRIO, que me fez refletir sobre o ato de colecionar, a partir de seu trabalho sobre os objetos de coleção na trajetória de Urbano, o Aposentado; 3) Aos historiadores Geraldo Sá Peixoto Pinheiro, Vânia Tadros, Luiz Bitton, Francisco Jorge dos Santos e Patrícia Sampaio, com quem organizei o livro “Cem Anos de Imprensa no Amazonas (1851-1950) – Catálogo de Jornais” publicado em Manaus, em 1987 (1a. Edição – Editora Ana Cassia) e em 1990 (2a. edição Editora Umberto Calderaro); 4) Aos historiadores  Luís Balkar Pinheiro e Maria Luiza Ugarte Pinheiro do Laboratório de História da Imprensa no Amazonas (LHIA – UFAM), que seguraram a peteca;  5) Aos meus alunos de Jornalismo Comparado da UFAM, que em 1978 fizeram o primeiro levantamento na hemeroteca do IGHA e a  quem faço questão de aqui nominar: Izane Torres, Wandler Cunha,  Inácio Oliveira, Regina Helena Magnoni, Eliana, Maria do Socorro Oliveira, Maria de Fátima Sampaio, Conceição Derzi, Otoni Mesquita, Ângela Abreu, Maísa Vilhena, Antonio Braga, Roberta Silva, Adeice Torre, Eduardo Monteiro de Paula, Orlene Marques, Jorge Marques, Maria de Jesus Martins, Circe Alves, Ana Maria Pina, Izabel Melo, Etra Lúcia Batista, Roselane Galvão, Alice Valle da Costa, Josely Moreira Ribeiro, Idalina Lasmar, Maria José Azevedo.
  1. LEONEL NEIDE FERREIRA says:

    Hoje, com a globalização, há jornais pela internet,televisão e outros meios.Infelizmente,as notícias são quase as mesmas.O jornalista pouco vai aos locais dos fatos.Fica na sala pesquisando na Internet.ALGUNS REPETEM NÃO SEI QUANTAS VEZES A MESMA NOTÍCIA QUE DÁ AUDIÊNCIA.E o público gosta.

  2. Lema Gonzalo says:

    Que curioso!

    Eu conheci uma historia muito parecida ocorrida num vilarejo do Departamento de Antioquia, chamado Titiribí, na Colombia.
    O mais curioso desse caso foi que quem colecionava os jornais era um caipiro iletrado,com o sobrenome de “Champaña” porque ele vendia refrigerantes nas ruas do povoado e vassorava a sua praca .Ele morava num porao que ficava debaixo de um dos monumentos do parque, que a prefeitura lhe emprestava em troco pelo seu trabalho. Ainda, ele nao comprava os jornais, mas os recolhia do lixo que os empregados estrangeiros das minas de ouro pertas jogavam
    Quando ele ficou doente foi levado a uma casa para idosos onde ele morreu. Ao abrir o seu abrigo, se acho uma enorme pilha de jornais e revistas nao só em espanhol, mas em inglês, Francés e outros idiomas, datados desde as décadas do 20 e 30 do passado século.
    O material foi levado para um porao da sede de uma entidade oficial. Lá ficou durante muito tempo até que um oficial da instituicao decidiu quimá-lo para limpar o local.
    Afortunadamente, um arquiteto ligado à Universidade de antioquia eque fazia um trabalho de restauracao no povoado,tomou conta do material e o fez deslocar até a biblioteca da universidade. Para a sua locomocao até lá, foi necessário empregar uma carreta que fico completamente cheia com o material. Na universidade foi classificado, resenhado e arquivado tecnicamente. Hoje constitui um arquivo histórico muito valioso, que registra o desenvolvimento da imprensa na Colômbia, com exemplares desconhecidos de jornais e revistas, muitos já sumidos.
    A partir desse acontecimento, uma homenagem pública foi feita a “Champaña”, pelo seu aporte à cultura e à história.

    MUITO INTERESSANTE NÉ?

  3. Lema Gonzalo says:

    Correcao.

    Leia-se “apelido” ao invés de sobrenome.

    Atenciosamente: Lema Gonzalo.

Deixe uma resposta

Serão rejeitadas mensagens que desrespeitem a lei, apresentem linguagem ou material obsceno ou ofensivo, sejam de origem duvidosa, tenham finalidade comercial ou não se enquadrem no contexto do d24am.com. A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores.

perfildoautor

  1. Ronaldo declara que Copa do Mundo não se faz com hospital

    1

  2. Cláudia Raia e filho de Marília Gabriela comentam as declarações de Alexandre Frota

    2

Os blogs de D24am