Thomazinho
Vai assim mesmo, no diminutivo com o qual os amigos carinhosamente o chamavam: Thomazinho. Quanto mais o tempo passa, mais ele permanece Thomazinho, vivo no afeto que se encerra em nosso peito juvenil. Depois da assustadora entrevista do ex-delegado do DOPS, Cláudio Guerra a Alberto Dines, no dia 5 de junho, no programa Observatório da Imprensa, Thomazinho ficou ainda mais Thomazinho na nossa lembrança, em nós que não queremos, que não podemos esquecê-lo.
Thomaz Antônio da Silva Meirelles Netto, o Thomazinho, nascido em Parintins, ex-aluno do Colégio Estadual do Amazonas, ex-secretário geral da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), é o único amazonense incluído na lista oficial dos desaparecidos na ditadura militar. Filho de dona Maria, companheiro da Miriam Malina, com quem teve dois filhos – Larissa e Togo – ele foi preso no dia 7 de maio de 1974 quando viajava do Rio para São Paulo e nunca mais foi visto.
Agora, quem nos dá notícias dele é o ex-delegado do DOPS, Cláudio Guerra, atirador de elite, que aprendeu seu ofício com instrutores norte-americanos e treinou com especialistas em terrorismo e espionagem do serviço secreto de Israel – o Mossad, conforme declarou a Alberto Dines. Participou ativamente da repressão, seguindo as palavras de um de seus instrutores que lhe ensinou: “Existem os que morrem e os que matam, você tem que escolher seu lado”.
Cláudio escolheu. Embora diga que não torturou, admite ser responsável por mais de 20 mortes: “Tirei vidas, só a misericórdia de Deus para perdoar”. O ex-policial conta que recentemente encontrou Deus, que se converteu e, por motivação religiosa, para “encontrar a paz de espírito”, se arrependeu de seus pecados. Ele acredita no inferno e está com medo de ir para lá. Por isso, resolveu se confessar. Escreveu o livro “Memória de uma Guerra Suja”, lançado no mês passado, onde conta histórias de assassinatos e torturas durante a ditadura militar. Na entrevista, ele elucida:
“Hoje mais uma historia triste para esclarecer, é (do) desaparecido político Thomaz Antônio da Silva Meirelles. Esse fato só veio à minha memória posterior à edição do livro, não consta do livro essa história por isso eu estou vindo a público agora para poder esclarecer”.
“É… eu recebi um chamado do coronel Perdigão, como sempre era ele que fazia, e fui ao quartel da Barão de Mesquita, entrei no quartel… no pátio, você entrando pela guarda, você chega num pátio… e onde ali a tropa faz exercícios físicos, com pranchas abdominais, tem lá, acho que tem isso até hoje. Até uns anos atrás ainda tinha isso lá… E no fundo ficava o quartel… o presídio, que é um prédio com dois pavimentos, uma construção com dois pavimentos, a época existia também uma parte subterrânea não sei se tem hoje”.
“E ali o coronel Perdigão me entregou um corpo que estava num saco preto, né, e o subalterno dele, era comum, eles nunca dirigiam a mim a palavra porque existia uma separação entre o meu grupo… o grupo que eu servia e aquele grupo que estava ali de militares. O coronel fazia uma… pela disciplina que não tivesse conhecimento um dos outros, pois justamente para preservar o segredo da operação”.
“Ele me entregou esse corpo ali, eu não olhei, via de regra às vezes eu examinava, mas esse ai eu não examinei, e quando chegou em Campos que eu abri o saco para poder ver quem era, vi que se tratava de um homem aparentando ter mais ou menos 40 anos, por ai, ou talvez menos. E muito machucado, ele estava apenas vestido com um calção, não tinha as unhas das mãos estavam arrancadas, o rosto bem desfigurado pelas torturas, sinais de queimaduras…”.
“É triste estar falando isso para a família, mas a família precisa saber a verdade, saber o que aconteceu com o seu ente querido. Não justifica, não tem desculpa, não quero me eximir de culpa, mas esse esclarecimento eu devo à família, como eu devo a todas as famílias. Foi erro, foi passado, foi uma guerra suja como está no livro. Mas hoje eu me penitencio, porque hoje eu sirvo a Deus, eu quero é o perdão de Deus. E se a sociedade entender que isso é um dever, não só meu, mas de todos aqueles que erraram… e voltar e falar do que fizeram de errado é o momento de nós nos… não nos punirmos, mas poder esclarecer e olhar para Deus e para o homem sabendo que foi errado, para que não se repita mais”.
Diante do depoimento do policial arrependido, a pergunta agora é: quem matou Thomazinho? Um dia antes da entrevista citada, a Comissão da Verdade se reuniu, na última segunda-feira, pela terceira vez desde que foi instalada em maio. Na ocasião, o ministro da Defesa, Celso Amorim, afirmou que as Forças Armadas irão disponibilizar todas as informações que a Comissão da Verdade solicitar para apurar as violações aos direitos humanos.
Cabe, então, requisitar e abrir os arquivos dos centros de informação do Exército (CIE), da Marinha (CENIMAR) e da Aeronáutica (CISA) que formavam o sistema de inteligência das Forças Armadas no período da ditadura. Cabe, ainda, convocar o Coronel Perdigão e Cláudio Guerra para que nos forneçam informações sobre quem torturou e assassinou o Thomazinho.
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perfildoautor
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Graduado em Comunicação Social pela UFRJ, Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indigenas da Faculdade de Educação. Ministra cursos de formação de professores indígenas em diferentes regiões do Brasil.
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emocionante professor … obrigada pela aulinha … no diminutivo mesmo, mas pela solidariedade à Miram Malina, uma pessoa iluminada com quem tive a honra de trabalhar no Amazonas em Tempo e no Jornal do Norte – eu no começo de carreira e ela bem experiente na profissão e após ter vivido toda essa trágica passagem histórica – … obrigada por manter a história em pauta.