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O blog do professor Ribamar Bessa Freire

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Pão molhado na CPI

Vi no noticiário da TV, já de madrugada, que a CPI do Cachoeira engavetou os requerimentos para ouvir três governadores, cinco deputados e o dono da Delta, Fernando Cavendish, cujo pedido de quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico também foi negado. A CPI não conseguiu chamar qualquer tubarão para depor, nem sequer o vilão, senador Demóstenes Torres, que chegou a ser cogitado para ser candidato a presidente pelo DEM (vixe!). Só convocaram peixe pequeno, arraia miúda. Preocupado, fui dormir e tive um pesadelo.

Sonhei que, entre os bagrinhos convocados, havia um cidadão amazonense, de nome Rodrigo Freire Souza, assistente social, 28 anos, do signo de Libra, que trabalha na Prefeitura do Careiro (AM). Sonhei – essas coisas doidas de sonho – que para atender a convocação, ele saiu de casa e veio de bubuia, nadando, no meio de toneladas de lixo que boiou com a cheia do Rio Negro, espalhando fedor e doença. Em Brasília, onde chegou todo molhado, fez um depoimento-bomba com revelações que deixaram os parlamentares atordoados.

Embora a sessão tenha sido secreta, a sociedade brasileira ficou sabendo de tudo, porque o sonho foi filmado por uma câmera especial Full HD, dotada de um poderoso zoom óptico, capaz de captar até imagens do sussuruim - um piolhinho minúsculo que dá na cabeça do mucuim – e que foi adaptada para filmar pensamento. Durante o sonho, o sonhador, no caso este locutor que vos fala, se comprometeu a publicar tudo no Diário do Amazonas que é, agora, o que passo a fazer.

No templo

Quais foram as revelações-bomba? Calma, que o Brasil é nosso, avexado (a) leitor (a). Preciso informar, antes, que a CPI quebrou o sigilo bancário e telefônico de Rodrigo Souza, fazendo descobertas sen-sa-cio-nais. O depoente é titular de uma conta única, onde seu salário de R$2.615,27 é depositado mensalmente pela Prefeitura. Ele vive no vermelho e está esperando a abertura de uma agência no Careiro para renegociar sua dívida atual de R$138,26.

Um dos membros da CPI, o impoluto senador Collor de Melo, fuçou as ligações telefônicas e descobriu outra informação de transcendental importância para moralizar o país. É que o depoente, em sua adolescência, namorou escondido a irmã do Ângelo, seu melhor amigo. Gravaram um telefonema dele para a Kelly – esse é o nome dela – marcando um encontro no shopping. Collor, fofoqueiro, queria saber se o depoente havia pago o sorvete de cupuaçu que a Kelly consumiu, um dado importante para investigar a organização criminosa do Cachoeira.

- “Não desviemos o foco” – protestou o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), com muita firmeza, apesar daquela vozinha de taquara rachada. – “Que o depoente nos conte o que sabe sobre as ligações de Carlinhos Cachoeira com Alfredo Nascimento, ex-ministro do Transporte  e com o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes. Queremos saber tudo sobre os contratos bichados das obras rodoviárias e do lixo de Manaus”.

Foi aí que Rodrigo desandou a falar, mas – essas coisas doidas de sonho – ele era criança, com 12 anos, e tinha a cara do filho Rodriguinho. Disse coisas sábias. Perguntou por que a CPI ouvia os bagrinhos e dispensava tubarões como os governadores Marconi Perillo (PSDB-GO), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ), com ligações comprovadas com a contravenção e com a Delta, o braço financeiro de Cachoeira. Indagou se tinha havido acordo partidário entre PSDB, PT, PMDB e DEM: “não convoca o meu, que não convoco o teu”.

Eis que de repente, a avó do Rodrigo, dona Elisa, adentra o sonho, incentivando o neto-criança a continuar doutrinando os parlamentares: – “Parece Jesus, no templo, entre os doutores” – ela diz, embevecida com tanta sabedoria. Foi quando a Preta, mãe do Rodrigo, repreendeu o filho: – “Onde estavas, que eu e o Geraldão te procuramos há três dias”. Rodrigo respondeu imitando a fala das pessoas no Evangelho de Lucas:

- Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa do meu Povo?

Verbo defecativo

O depoimento prossegue. O impoluto senador Collor, com o dedo em riste  – essas coisas doidas de sonho – ordena:

- Exijo que o depoente conjugue, no presente do indicativo, o verbo peidar.

Um silêncio profundo tomou conta da sala da CPI. Ninguém sequer respirava. Todo mundo aguardava aquilo que seria a revelação-bomba da CPI. O depoente, então, pigarreia, olha os parlamentares, faz um gesto abarcando todos os integrantes da CPI, aponta pra eles e responde:

- Vós peidais!

O impoluto senador Collor insiste:

- Só isso? Repilo! Que o depoente conjugue o verbo em todas as pessoas!!!

Rodrigo Souza deu, então, uma aula de português, explicando que o verbo em questão era um verbo defecativo, como o verbo ventar, que não apresenta toda as formas verbais, deixando de ser conjugado em determinadas pessoas, tempos ou modos. No caso, se conjuga só na segunda pessoa do plural, admitindo-se, em casos excepcionais, a segunda pessoa do singular: – Tu peidas – ele disse apontando Collor.

No final do sonho, Rodrigo, que é noveleiro, sugeriu que a CPI convocasse Débora Falabela, a Rita/Nina de “Avenida Brasil”. Ela, que viveu no lixão e vive escutando detrás das portas as falcatruas planejadas pelos outros, pode falar sobre as relações de Carlinhos Cachoeira com políticos, empresários, governadores, judiciário e imprensa.

Acordei angustiado com o sonho que tive com o meu sobrinho Rodrigo, mais conhecido como “Pão Molhado”. Não sei como interpretá-lo. Quem souber, por favor, cartas à redação (Pré-lançamento do livro “Essa Manaus que se vai” em www.institutocensus.com.br/ed).

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