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Tia Suzana, meu amor

“Aquilo que vivemos não está no mundo, está na maneira como olhamos para ele”. É o que nos diz o romancista português Antônio Alçada Baptista, autor de uma vasta obra. Tudo depende, então, dos significados que cada um atribui àquilo que viveu. Quem concorda com essa definição é Gabriel Garcia Márquez, que acrescenta, no entanto, mais duas dimensões, além do olhar: a memória e a capacidade de narrar.

- A vida não é aquela que uma pessoa viveu, mas a que ela recorda e como recorda para contá-la – escreveu o escritor colombiano.

Pensando bem, parece que os dois têm razão. Nossa vida acaba sendo isso mesmo: o que olhamos, o que  lembramos e o que narramos. “The rest is silence”, nas últimas palavras de Hamlet, antes de morrer. Ou “o resto é farofa de abobrinha”, na tradução do meu sobrinho Pão Molhado, que gosta de filosofar.

Lembrei do Antonio Alçada agora, nesta semana em que celebramos a presença dos índios no Brasil, por causa de uma história que ele me contou, em 1982, a mim e ao escritor amazonense Márcio Souza, quando juntos o visitamos, em Lisboa, no Instituto Português do Livro do qual ele era, então, presidente.

Alçada, falecido há três anos, era um grande contador de história, divertido e sedutor. Escrevia, ainda, crônicas saborosas no jornal O Dia, do qual foi redator-chefe. O fato que nos contou ocorreu em uma viagem de turismo de barco que ele fez pelo sul do Mar Egeu com um grupo de amigos portugueses.

Numa das ilhas gregas, acho que era Creta, mas não tenho certeza, ele estava de pé, diante das ruínas de um palácio, conversando sobre o passado glorioso da Grécia com seus amigos. Foi aí que passaram vários turistas japoneses, disciplinados e em fila, ostentando suas filmadoras e máquinas fotográficas. Um deles parou, ficou escutando, olhava com insistência, fixamente, não desgrudava os olhos de Alçada. Os olhares dos dois se cruzaram. O japonesinho se aproximou e, demonstrando que havia entendido a língua que falavam, usou a última flor do Lácio, inculta e bela, para perguntar:

- Desculpa. Vocês são portugueses?

Diante da resposta afirmativa, o “japonesinho”, que era brasileiro, do interior de São Paulo, colocou o polegar e o indicador na boca, emitindo um longo e estridente assobio para seus amigos que haviam se distanciado. Quando todo mundo virou a cabeça, ele gritou:

- Ei, pessoal! Voltem aqui! Encontrei um grupo dos nossos antepassados.

O escritor contou que os portugueses explodiram em uma gargalhada generalizada, só em imaginar que eram avós daqueles “japoneses”,  de olhos puxados e pálpebras lisas. Logo depois, porém, os dois grupos se confraternizaram e a ficha caiu. A ascendência não se devia às características fenotípicas ou genéticas, mas à cultura, à língua. Aqueles filhos de imigrantes nipônicos que nasceram no Brasil acabaram assumindo a história do país, um passado que, embora não sendo deles, individualmente, nem de suas famílias, é da nação a qual eles pertencem.

Mas o que sobrou dessa história foi a pergunta: e se os brasileiros de origem japonesa tivessem encontrado alguns índios falando português, será que reivindicariam, igualmente, a descendência histórica? Provavelmente não, porque embora índios e africanos façam parte das matrizes formadoras da nacionalidade brasileira, nós fomos treinados, adestrados, para nos identificarmos exclusivamente com a matriz europeia.

A exclusão da herança indígena na formação da brasilidade é um equívoco comumente reforçado pela escola, pelo livro didático e pela própria mídia. Esta visão eurocêntrica e preconceituosa foi reafirmada em vários momentos significativos de nossa história, como nas comemorações do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, em 1900, quando no discurso de abertura, Paulo de Frontin disse com todas as letras que o Brasil nada tinha a ver com os índios.

- Os selvícolas não são nem podem ser considerados parte integrante da nossa nacionalidade; a esta cabe assimilá-los e, não o conseguindo, eliminá-los.

Esse obscurantismo intelectual, que elimina o índio na representação que o Brasil faz de si mesmo, está baseado em outros preconceitos, como aquele que considera as culturas indígenas como atrasadas e primitivas, desconhecendo que os índios produziram e continuam produzindo saberes, ciências, arte refinada, literatura, poesia, música, religião. Os colonizadores acreditaram nessa falácia, da mesma forma que ainda hoje muita gente ignora completamente a complexidade dessas culturas ou se pauta em estereótipos e no senso-comum sobre elas.

Quando se aceita que os índios fazem parte de nossa história, se cultiva outro equívoco, achando que eles pertencem exclusivamente ao passado. Ora, os dados do Censo de 2010, divulgados no dia 19 de abril – dia do índio – pelo IBGE, mostram que em relação aos dois censos anteriores, a população indígena cresceu extraordináriamente, totalizando 817.630 indivíduos, que vivem em 4.480 municípios dos 5.565 existentes no Brasil.

Sobre esses equívocos é que estarei falando na próxima quinta-feira, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio, no Seminário Brasil, brasis, coordenado por Domício Proença Filho, numa mesa redonda intitulada “O índio no Brasil contemporâneo”, com a doutora Graça Graúna, professora da Universidade de Pernambuco. E o que tudo isso tem a ver com a Tia Suzana, Meu Amor? Ah, esse é o título de um romance do Antônio Alçada sobre o qual eu queria comentar, mas o espaço se esgotou.

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