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O encontro com Aldo
Ralfson juntou uns trocados que tinha, colocou gasolina no carro de um vizinho e foi para um auditório na sexta-feira pela manhã. Ele ia ver o Zé Aldo, tentar tirar uma foto com o cara e, na melhor das hipóteses, ser reconhecido pelo lutador campeão mundial.
Nas noites de segunda-feira, no início da década passada, o treino na NV era barra pesada. Os faixas-brancas como Ralfson e Aldo ficavam de escanteio, observando os feras treinar. Na época, a maior aposta da academia era o Marco ‘Lôro’. Outros cascas-grossas se juntavam nesse dia para treinar com pano (kimono). Os garotos adoravam ver o talento do Lôro, a técnica do Kiki, a força do Nyton, a guarda intransponível do Tom. Ralfson, como filho da classe média, praticava o esporte. Aldo, como filho da miséria, via aquilo como oportunidade de sobrevivência e futuro.
Numa destas segundas-feiras, o treino era comandado pelo sêo Cosme, que chamou os meninos Aldo e Ralfson para treinarem com os graduados. Foram massacrados, claro. Cansado depois do treino, Aldo sorriu, disse que tinha aprendido bastante, que quando fosse campeão do mundo ia lembrar daquele treino. Ralfson riu, mas por outro motivo: descrença.
Uns anos depois, Aldo começou a se destacar pela técnica, pela agressividade e por nunca desistir. Fez sua primeira luta de MMA (nome moderno para o vale-tudo) em Macapá e foi incentivado a continuar, pois era muito talentoso. Mas tinha que juntar dinheiro para ir para o Rio de Janeiro, onde poderia treinar melhor e ganhar mais em eventos maiores. Houve uma ‘copera’ na academia, já que não havia patrocínio e nenhum político acreditava que um menino do Alvorada poderia ir tão longe. Ralfson até tinha uma grana, mas preferiu não cooperar e gastar o dinheiro com os amigos do Grêmio La Salle no El Mosquiton, boate que bombava na Ponta Negra da época.
Aldo foi pro Rio e hoje realizou o sonho de ser campeão mundial, ganhou dinheiro pra sobreviver e ajudar a família. Ralfson terminou o curso de administração numa faculdade privada com baixo conceito no MEC, mas ainda não conseguiu emprego e ainda mora na casa do pai.
A visita de Aldo a Manaus seria mais um nó na costura torta da história dos rapazes. Ralfson esperava pela foto com Aldo. Seu plano era usar a imagem para enganar a namorada e outros conhecidos que era amigo do campeão.
Ao chegar no auditório, viu centenas de pessoas. Correu para um lado, para o outro, se esgueirou e conseguiu chegar perto da porta por onde o lutador entraria. Celular na mão, à postos e eis que abre a porta. Quem apareceu primeiro foi um secretário, seguido por um secto de funcionários comissionados. Depois veio um bando de vereadores. Quando Aldo surgiu, Ralfson tentou se aproximar e levou uma cotovelada de um segurança do prefeito. Foi atrás e levou um chega pra lá de um secretário almofadinha. Não deu pra chegar perto.
O evento transcorreu e, por um breve instante, os olhos de Ralfson cruzaram os olhos constrangidos de Zé Aldo, no exato momento em que o campeão levantava o cinturão para ser aplaudido. Ralfson viu que não teria chances, desistiu.
O evento terminou rápido e Aldo foi levado às pressas para um carro importado dirigido por um político. Na confusão da saída, Ralfson perdeu a carona. Sem muita grana no bolso, teve que voltar pra casa de ônibus. No trajeto, refletiu: “Eu não sabia que o José Aldo tinha tantos amigos políticos. Será que esse pessoal era amigo dele antes da fama ou estão querendo se promover à custa do sucesso do cara porque é ano eleitoral?”.
Sem resposta para esse questionamento, Ralfson passou a pesar se deveria ter ajudado o garoto pobre da academia na época das vacas magras ou se foi melhor tomar umas margaritas ao som de Los Tiburones no El Mosquiton… Ralfson riu. Lembrou que tinha ‘ficado’ com uma menina naquela noite. Ele só não lembrava o nome dela.
PS – No sábado, Aldo se livrou dos amigos de ocasião e foi para o Alvorada, celebrar seu sucesso com os amigos de verdade.
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perfildoautor
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Radical moderado fazendo jornalismo há 10 anos. Criador e editor do jornal DEZ Minutos e do portal D24AM.com. Namorado, pai, botafoguense e amigo chato.
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Prezado Marcio dificilmente me atenho a comentários na internet ou redes sociais, quando perguntam sempre informo que não tenho tempo para ficar nessa troca simultânea de caracteres, mas a grande verdade é que não gosto da exposição excessiva e nem do que chamo de libertinagem virtual, onde o cidadão acha que pode abusar do besteirol. Mas, abri hoje um epaço para lhe falar sobre o seu artigo “Encontro com o Aldo”, a singeleza e importância do tema abordado: amizade verdadeira X oportunismo.
São histórias do dia a dia, que se repetem na vida de muitas personalidades. Muitos não têm o comportamento de José Aldo e voltam às costas para sua origem.
Uma vez em discurso oficial ao final da SBPC Jovem de Manaus, surpreendi o Zé Aldemir, com um agradecimento especial aos “amigos de todas as horas”. Ele aplaudiu porque sabia que aquilo (sem ser piegas) vinha do íntimo da alma, tal qual o seu artigo.
Parabéns!
” Ralfson terminou o curso de administração numa faculdade privada com baixo conceito no MEC, mas ainda não conseguiu emprego e ainda mora na casa do pai ”
Retrato do amazonense médio…
Parabéns Ao José Aldo por mesmo ter sido “deixado de lado” pelos seus “amigos”, “conterraneos” e pelos políticos do Amazonas, acreditou no seu potencial e foi buscar com sacrifícios a posição que hoje alcançou. Existem vários “amazonenses” que são abandonados pelos péssimos políticos do Amazonas e se vêem obrigado a viajarem para outros estados buscando o seu reconhecimento. Depois esses mesmos políticos vêem com “abobrinhas” querendo enaltecerem aqueles que foram humilhados. Haja paciência!!!
Oportunistas todos aqueles que ao menos conheciam Jose Aldo e agora ficam desfilando ao lado para se benefiarem da imagem do atleta politicos não batem prego sem estopa oportunistas inescrupulosos mediocres bando de ratazanas etc.