Educonomia

EVANDRO BRANDãO BARBOSA Economia, Educação, Sociedade e História

O Pau da Careta: sustentabilidade no imaginário

Os termos sustentabilidade e desenvolvimento sustentável não têm sido utilizados com frequência na mídia como ocorria no final da primeira década dos anos 2000. Havia muito dinheiro, naquela época, para pesquisar e também viajar com o objetivo de aprender como zelar pelo ambiente e evitar catástrofes ambientais e mudanças climáticas. Na metade da segunda década dos anos 2000, os termos sustentabilidade e desenvolvimento sustentável deixaram de preocupar a mídia e pouco se fala sobre os mesmos. Não significa que os conceitos desses termos tenham sido abolidos da teia do conhecimento universal, significa que o mundo hoje tem outras preocupações para as quais há verba disponível a ser utilizada. Esses termos continuam na escala global de discussões. O conteúdo dos parágrafos seguintes deste texto aborda a sustentabilidade em escala local; um entendimento da sustentabilidade no imaginário de pessoas que vivem localmente, mas possuem racionalidade complexa e sistêmica em escala universal, global, porque são humanos não somente como seres, mas principalmente como energias nas margens de rios como Amazonas, Negro e Solimões.

Evandro Brandão Barbosa

Pesquisar e estudar o imaginário daqueles que vivem nas áreas ribeirinhas, cujo ambiente de sobrevivência, luta e resistência encontra-se representado pelas águas e florestas, é de importância social. Não somente para compreender o pensar e o viver dos indivíduos dessas comunidades, mas, principalmente, para relacionar diferentes formas de demonstrar como a natureza pode ser compreendida.

Lendas ou mitos como Caipora, Saci-Pererê, Cobra-Grande, Bôto etc. podem ser entendidos como resultado do reflexo da imaginação de cada um e de todos aqueles que mantêm contatos viscerais com a natureza e, mesmo sem ter a facilidade de verbalização comum aos frequentadores de escolas formais, encontram suas formas de mostrar a necessidade da sustentabilidade, da preservação da natureza e da valorização do ser humano como gerente da continuidade da sua própria espécie.

Nesse cenário, surge a entidade do Pau da Careta, anunciada como a imagem de uma face que aparece no tronco da árvore, a espreitar aqueles que buscam nas árvores e nas águas os meios para a satisfação das suas necessidades. O Pau da Careta é a personalização de sustentabilidade no imaginário daqueles que habitam as margens de grandes rios como o Amazonas, o Solimões e o Negro, no Estado do Amazonas. As pessoas que ali vivem narram que o Pau da Careta foi visto em árvore próxima a um lago. O Pau da Careta representa um guardião da natureza, uma entidade zeladora da sustentabilidade, que desperta o homem diuturnamente para um contato harmonioso com a floresta, com as águas e seus habitantes.

Desse modo, estudiosos e estudiosas que buscam, através da pesquisa, aproximar-se do imaginário dos povos habitantes das regiões ribeirinhas, não devem esperar verbalização dessas pessoas para explicar o que é desenvolvimento sustentável e sustentabilidade. Antes desse tipo de esperança ou expectativa, pesquisadores e pesquisadoras devem compreender a idéia de sagrado culturalmente vivenciada de gerações e gerações. Logo, pescadores consideram as águas, sejam do mar, dos rios e dos lagos como ambiente ou meio sagrado, onde se deve ter respeito e rituais apropriados; de igual modo, os caçadores e aqueles que retiram das florestas e das matas os seus recursos de sobrevivência tratam esses ambientes como sagrados. E como há tantos homens com poderes para destruir todos esses ambientes, há uma tendência para o surgimento de protetores da natureza, imaginários ou reais; lendas, mitos e entidades que habitam as mentes dos povos que continuam utilizando a intuição como fonte de verdade. Assim, o imaginário habilita-se como instrumento de luta e de resistência para evitar a destruição do ambiente, enquanto muitas pessoas buscam a acumulação do capital como forma de dar continuidade à própria espécie sem considerar a necessidade de preservação dos ecossistemas naturais.

O Pau da Careta é mais uma entidade do imaginário dos habitantes ribeirinhos, uma forma de alertar o homem que a floresta e as águas têm um protetor poderoso e sempre alerta contra aqueles que ainda desarmônicos com a natureza realizam práticas de destruição ambiental. Ambiente não é natureza; pode-se aprender um pouco sobre ambiente quando se lê os escritos do autor Enrique Leff.

O Pau da Careta é a entidade representativa da sustentabilidade imaginada pelos ribeirinhos. Pesquisadores e pesquisadoras que façam os seus trabalhos acadêmicos e científicos para interpretar esse imaginário. Porém, não devem esquecer das reflexões necessárias ao questionamento do saudoso autor Rubem Alves: o que é científico?


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