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Artigo: A Síria é aqui

Na última semana, o secretário municipal de educação do Rio de Janeiro postou no seu diário em uma rede social a triste notícia do assassinato de Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, nas dependências da Escola Daniel Piza, em Acari. O dia havia sido de tiroteios em várias regiões da cidade e muitos [...]

Arnaldo Carpinteiro Peres

Na última semana, o secretário municipal de educação do Rio de Janeiro postou no seu diário em uma rede social a triste notícia do assassinato de Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, nas dependências da Escola Daniel Piza, em Acari. O dia havia sido de tiroteios em várias regiões da cidade e muitos colégios não funcionaram deixando centenas de alunos sem aula. Além disso, ele mostrou uma foto onde todas as crianças estavam deitadas com medo de serem atingidas. Para vergonha nossa, a notícia circulou em vários países, do “New York Times”, passando pelos principais meios de comunicação europeus, até a TV árabe “Al Jazera”, acostumada a avaliar a importância do fato sobre violência.
Em todo mundo, com maior ou menor intensidade, as sociedades modernas vivem o pesadelo da violência impune a ameaçar-lhes a sobrevivência. Dupla ameaça: à civilização, o somatório das conquistas da convivência social, seus valores humanitários e, principalmente à democracia, incapaz de sobreviver no caos.
A escalada desses episódios hoje nos morros do Rio, nos leva a defrontar um drama permanente, que é a existência de comunidades vivendo à margem dos nossos padrões de organização social, a exigir reflexão e ação. Até aí, nenhuma novidade, afinal a cidade há muito já vive num estado de guerra constante, onde traficantes, o crime organizado, milícias, polícia, moradores, todos se misturam num conflito que parece não ter fim. A novidade emerge quando se verifica a total omissão do Estado que até hoje não enfrentou o problema de forma efetiva, com vontade política e competência, como já fizeram outros países com êxito.
Deixemos de farsas inúteis. O crime organizado, os traficantes, os bicheiros, continuam nas favelas cariocas porque agentes de segurança toleram suas atividades ilícitas. Desnecessário dizer que, há muito, as populações dessas comunidades carentes foram abandonadas pelo poder público que dele só conhecem a face do achaque e da repressão ilegal. Enquanto o governo federal não encarar com seriedade a questão, com a definição de um plano nacional de segurança pública, o espetáculo diário com sangue e mortes de cidadãos inocentes ou não, vai continuar nas periferias perdidas, Brasil afora.
Exatamente como aconteceu semana passada próximo à escola, onde dois suspeitos foram mortos por policiais. As imagens revelam que houve ali simplesmente uma brutal execução. O episódio mostrado pelo “Jornal Nacional” é um desses acontecimentos capazes de entorpecer a opinião pública ou chocá-la. Não há meio termo.
Nesse contexto, a população percebe que hoje, quem reside nos grandes centros urbanos, vive momento decisivo de sua segurança. De um lado, está entregue a violência do tráfico comandado de dentro dos presídios e dos assaltantes avulsos em cada esquina. De outro, também sofre por não confiar na polícia, não raro, sem condições para manter a ordem e enfrentar a bandidagem. Talvez até por isso alguns, infelizmente, ainda apoiam a execução sumária, como meio de enfrentar o problema. Convenhamos, de forma equivocada, porque afinal esse não é e nunca será o caminho. Além disso, um país sério, obviamente há de se respeitar a Constituição e as leis.
Mas, por enquanto, somos todos reféns da violência. As operações vão continuar  provocando mortes de suspeitos, mas também de inocentes. Principalmente, pobres, pretos e favelados, é claro. E a turma de Ipanema? Bem… esses estão todos na praia, longe dos tiros. Afinal, ali nunca ninguém vendeu nem consumiu droga. Aliás, também nunca assaltaram os cofres públicos…

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