Artigos

RIBAMAR BESSA FREIRE Nossa equipe de opinião. Envie seu texto, ele pode sair nos nossos jornais.

Malária, poesia e outros bichos

“Ah! a poesia aqui, / meu filho, / é uma doença tropical”. (Aldísio Filgueiras – Malária e outras canções malignas) Numa linguagem delirante e febril que explode termômetros, o poeta Aldísio Filgueiras diagnostica ironicamente a poesia como uma patologia local. Essa relação literatura e doença já havia sido explorada de outra forma, em 1910, pelo jornal The [...]

Ribamar Bessa Freire

"Ah! a poesia aqui, / meu filho, / é uma doença tropical".
(Aldísio Filgueiras - Malária e outras canções malignas)
Numa linguagem delirante e febril que explode termômetros, o poeta Aldísio Filgueiras diagnostica ironicamente a poesia como uma patologia local. Essa relação literatura e doença já havia sido explorada de outra forma, em 1910, pelo jornal The Porto Velho Marconigram, publicado no rio Madeira, em inglês, que trazia sob o titulo a frase em espanhol: "La vida sin literatura y quinina es muerte". Agora, a ideia de que as duas juntas geram vida é reafirmada no livro "Malária no Amazonas: registros e memórias", lançado no sábado (10), em Manaus, pela Editora Valer.
Os autores Auxiliadora Bessa Barroso e Raul Amorim, sanitaristas - ela educadora em saúde e ele malariologista - recuperam essa imagem de que a literatura é tão vital quanto a quinina. Se faltar uma delas, a morte triunfa. Quinina aqui é uma metáfora do combate à malária no Amazonas. Literatura é o relato das experiências que ambos viveram como soldados nas trincheiras da Campanha de Erradicação da Malária (CEM), da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM) e da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA).
Se a memória sobre o combate travado contra a doença for apagada, a sociedade perde. É o que afirma Marcus Barros, médico, ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas, com experiência de meio século como infectologista. "É muito importante para o controle dessa grande endemia, que recuperemos parte de sua história aqui na região, para que todos os envolvidos, atores e vítimas, aprendamos os mecanismos pelos quais poderemos controlá-la" - ele escreve na apresentação.
Duende da Amazônia
Foi o que fizeram os autores que saíram em busca da trajetória da malária pelo planeta até chegar na Amazônia, destacando o período da borracha, do final do séc. XIX aos anos 1950. Tiveram uma trabalheira porque os arquivos sob os cuidados da FUNASA não foram preservados. Os dois pesquisadores buscaram então acervos pessoais de profissionais: relatórios técnicos, pareceres, diários de campo, formulários, dados estatísticos, resumos de reuniões, depoimentos verbais, fotografias, mapas, gráficos, registros de observações diretas.
Construíram um texto agradável de ler com essas fontes primárias complementadas com documentos oficiais. Reconstituíram a viagem do sanitarista Oswaldo Cruz por ocasião da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em 1910, quando ele observou e estudou a doença, depois de praticar dezenas de autópsias no Hospital de Candelária. Os autores calculam que 6.200 óbitos de trabalhadores ocorreram só ao longo da linha de construção da ferrovia.
No cemitério de Candelária, em Porto Velho, foram sepultados pelo menos 1.593 estrangeiros de 22 países, vítimas do "duende da Amazônia" - a malária - segundo Oswaldo Cruz. Mas há um segredo lá enterrado que os autores não contam porque odeiam fofocas, mas eu, que me amarro num "bafão", vou mexericar. O Candelária, cemitério que só enterrava gringo, abriu exceção para uma única brasileira, Lydia Xavier, porque ela era amante de um engenheiro norte-americano e sua morte tinha de ser abafada. O túmulo dela tem inscrição em inglês. Pronto. Falei.
De lá para cá, muitos altos e baixos. "Infelizmente as perspectivas são sombrias por ser uma doença que atinge predominantemente a população de baixa renda, de áreas rurais e de exclusão social" comenta no livro o diretor-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, Bernardino Albuquerque.
O Carapanã
Os dois autores retomam os relatórios que produziram quando atuaram nas instituições de controle da malária. Dão testemunho pessoal de suas vivências. Analisam o esforço mundial para a erradicação da doença.  Para isso, mergulharam no manancial de dados no Boletim Informativo da CEM - O Carapanã - que lhes permitiu reconstruir uma boa parte da luta.
O Serviço Nacional de Malária (SNM), criado em 1941, fazia borrifação intradomiciliar, efetuava censos nos domicílios que eram cadastrados, coletava sangue e distribuía antimaláricos. Minha geração ainda lembra que as casas borrifadas eram identificadas com três letras azuis pintadas nas portas: SNM, traduzidas pelos cabocos da oposição como "Severiano Nunca Mais", em referência à candidatura de Severiano Nunes, da UDN (vixe, vixe), que foi prefeito e senador.
Está tudo lá. A polêmica em torno do uso do DDT, o emprego do sal cloroquinado e os problemas técnico-operacionais daí derivados, a abertura de rodovias e os projetos de mineração com graves consequências sobre a saúde dos colonos assentados na região. Wilson Alecrim, médico e ex-coordenador da SUCAM, lembra no prefácio que milhares de nordestinos pereceram tragicamente na floresta amazônica, vitimados pelas doenças endêmicas, entre elas a malária, "a rainha das doenças".
É assim que a malária é conhecida, segundo Pedro Tauil, professor da UnB, ele também outro apresentador do livro, que aliás conta com um timaço de médicos e pesquisadores, todos eles autoridades reconhecidas no tema. "A leitura desse livro enriquece a compreensão dos determinantes da incidência da malária na Amazônia, bem como das medidas de controle adequadas à realidade da Região" - escreveu Tauil, com quem o leitor certamente concordará depois de lê-lo.
"Ah! a poesia aqui, / meu filho, / é uma doença tropical". (Aldísio Filgueiras - Malária e outras canções malignas) Numa linguagem delirante e febril que explode termômetros, o poeta Aldísio Filgueiras diagnostica ironicamente a poesia como uma patologia local. Essa relação literatura e doença já havia sido explorada de outra forma, em 1910, pelo jornal The Porto Velho Marconigram, publicado no rio Madeira, em inglês, que trazia sob o titulo a frase em espanhol: "La vida sin literatura y quinina es muerte". Agora, a ideia de que as duas juntas geram vida é reafirmada no livro "Malária no Amazonas: registros e memórias", lançado no sábado (10), em Manaus, pela Editora Valer. Os autores Auxiliadora Bessa Barroso e Raul Amorim, sanitaristas - ela educadora em saúde e ele malariologista - recuperam essa imagem de que a literatura é tão vital quanto a quinina. Se faltar uma delas, a morte triunfa. Quinina aqui é uma metáfora do combate à malária no Amazonas. Literatura é o relato das experiências que ambos viveram como soldados nas trincheiras da Campanha de Erradicação da Malária (CEM), da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM) e da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA). Se a memória sobre o combate travado contra a doença for apagada, a sociedade perde. É o que afirma Marcus Barros, médico, ex-reitor da Universidade Federal do Amazonas, com experiência de meio século como infectologista. "É muito importante para o controle dessa grande endemia, que recuperemos parte de sua história aqui na região, para que todos os envolvidos, atores e vítimas, aprendamos os mecanismos pelos quais poderemos controlá-la" - ele escreve na apresentação.Duende da AmazôniaFoi o que fizeram os autores que saíram em busca da trajetória da malária pelo planeta até chegar na Amazônia, destacando o período da borracha, do final do séc. XIX aos anos 1950. Tiveram uma trabalheira porque os arquivos sob os cuidados da FUNASA não foram preservados. Os dois pesquisadores buscaram então acervos pessoais de profissionais: relatórios técnicos, pareceres, diários de campo, formulários, dados estatísticos, resumos de reuniões, depoimentos verbais, fotografias, mapas, gráficos, registros de observações diretas.   Construíram um texto agradável de ler com essas fontes primárias complementadas com documentos oficiais. Reconstituíram a viagem do sanitarista Oswaldo Cruz por ocasião da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em 1910, quando ele observou e estudou a doença, depois de praticar dezenas de autópsias no Hospital de Candelária. Os autores calculam que 6.200 óbitos de trabalhadores ocorreram só ao longo da linha de construção da ferrovia. No cemitério de Candelária, em Porto Velho, foram sepultados pelo menos 1.593 estrangeiros de 22 países, vítimas do "duende da Amazônia" - a malária - segundo Oswaldo Cruz. Mas há um segredo lá enterrado que os autores não contam porque odeiam fofocas, mas eu, que me amarro num "bafão", vou mexericar. O Candelária, cemitério que só enterrava gringo, abriu exceção para uma única brasileira, Lydia Xavier, porque ela era amante de um engenheiro norte-americano e sua morte tinha de ser abafada. O túmulo dela tem inscrição em inglês. Pronto. Falei.De lá para cá, muitos altos e baixos. "Infelizmente as perspectivas são sombrias por ser uma doença que atinge predominantemente a população de baixa renda, de áreas rurais e de exclusão social" comenta no livro o diretor-presidente da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, Bernardino Albuquerque.O CarapanãOs dois autores retomam os relatórios que produziram quando atuaram nas instituições de controle da malária. Dão testemunho pessoal de suas vivências. Analisam o esforço mundial para a erradicação da doença.  Para isso, mergulharam no manancial de dados no Boletim Informativo da CEM - O Carapanã - que lhes permitiu reconstruir uma boa parte da luta.O Serviço Nacional de Malária (SNM), criado em 1941, fazia borrifação intradomiciliar, efetuava censos nos domicílios que eram cadastrados, coletava sangue e distribuía antimaláricos. Minha geração ainda lembra que as casas borrifadas eram identificadas com três letras azuis pintadas nas portas: SNM, traduzidas pelos cabocos da oposição como "Severiano Nunca Mais", em referência à candidatura de Severiano Nunes, da UDN (vixe, vixe), que foi prefeito e senador.Está tudo lá. A polêmica em torno do uso do DDT, o emprego do sal cloroquinado e os problemas técnico-operacionais daí derivados, a abertura de rodovias e os projetos de mineração com graves consequências sobre a saúde dos colonos assentados na região. Wilson Alecrim, médico e ex-coordenador da SUCAM, lembra no prefácio que milhares de nordestinos pereceram tragicamente na floresta amazônica, vitimados pelas doenças endêmicas, entre elas a malária, "a rainha das doenças". É assim que a malária é conhecida, segundo Pedro Tauil, professor da UnB, ele também outro apresentador do livro, que aliás conta com um timaço de médicos e pesquisadores, todos eles autoridades reconhecidas no tema. "A leitura desse livro enriquece a compreensão dos determinantes da incidência da malária na Amazônia, bem como das medidas de controle adequadas à realidade da Região" - escreveu Tauil, com quem o leitor certamente concordará depois de lê-lo.

Leave a Reply

Serão rejeitadas mensagens que desrespeitem a lei, apresentem linguagem ou material obsceno ou ofensivo, sejam de origem duvidosa, tenham finalidade comercial ou não se enquadrem no contexto do d24am.com. A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores.