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Artigo: Teste Vocacional

As crianças estavam brincando na maior tranquilidade quando o adulto se aproximou e disse, todo sorridente: “O que vocês querem ser quando crescerem”? Entregou papel e lápis e pediu que cada uma delas escrevesse sua resposta sem consultar os outros. Saiu, avisando que voltaria daí a meia hora para recolher os resultados e esclarecendo que [...]

Félix Valois

As crianças estavam brincando na maior tranquilidade quando o adulto se aproximou e disse, todo sorridente: “O que vocês querem ser quando crescerem”? Entregou papel e lápis e pediu que cada uma delas escrevesse sua resposta sem consultar os outros. Saiu, avisando que voltaria daí a meia hora para recolher os resultados e esclarecendo que as escolhas deviam ser justificadas. Era, se não estou em erro, o primeiro “concurso” que os guris enfrentavam, sem a consciência do que lhes reserva a vida nesse terreno específico. E, como visto, era uma prova dissertativa, o que poderia significar uma prévia longínqua da saga do ENEM.
Mariazinha, menina magricela de uns sete anos, não titubeou e afirmou com todas as letras: “Quero ser professora”. No setor dos “porquês”, ela aduziu: “A tia Fabrícia, minha professora lá no grupo escolar, é tão bonita, que eu quero ser como ela”. O desejo era de difícil realização, mesmo para o mais poderoso gênio da lâmpada. A cunhatã, feia como a justiça de Tefé, precisaria não apenas das habilidades de um cirurgião plástico, mas de um verdadeiro milagre, para atingir a qualidade do seu modelo. Fazer o que, entretanto? Não lhe haviam pedido coerência, apenas que ela expressasse sua vontade e ela assim o fez. Se viria a ser atendida, e pela motivação sugerida, são outros quinhentos, que escapam ao âmbito da narrativa. Nem interessam, aliás, porque, segundo me contaram, o tal teste vocacional era somente uma preliminar de um novo ramo da pedagogia, voltado para as inutilidades mais escancaradas. Tinha sido implantado por uma portaria do MEC e estava sendo aplicado, como se dizia antigamente, do Oiapoque ao Chuí. Talvez para suprir as deficiências do ensino da língua portuguesa.
Joãozinho, para variar o mais danado entre os entrevistados, foi sucinto e objetivo: “Eu quero ser como o Neymar porque ele joga bem e ganha muito dinheiro”. Os avaliadores ficaram impressionados com a ambição do curumim. Pesquisaram e ficaram sabendo que o menino tinha, de fato, muita intimidade com a bola de futebol e, num episódio curioso, havia conseguido que o português da taberna lhe vendesse três barras de chocolate pelo preço de duas. Concluíram que era perfeitamente compatível a vocação da criança com o que já demonstrava àquela idade: sabia jogar futebol e tinha propensão a não cumprir as regras do fisco. Ia acabar no futebol espanhol e na seleção brasileira. Tomara não resvalasse para a prisão.
A banca examinadora não se surpreendeu com a resposta de Teotônio: “Eu quero ir para a faculdade de direito”. “Essa é corriqueira”, concluíram. Entrar numa faculdade de direito é a coisa mais fácil que existe hoje no Brasil. Há uma em cada esquina, de forma que o pretendente não encontra nenhum problema para se matricular na que lhe esteja mais próxima da residência. O que vai acontecer depois da formatura (porque vai haver formatura, pode ter certeza) já não é tão simples assim. Em casos não muito raros, o bacharel vai meter os pés pelas mãos e acabar confundindo “habeas corpus” com “Corpus Christi”. Depois de muito penar, a vítima (corrijo: o cliente) vai, em desespero, buscar ajuda verdadeiramente profissional. Muitas vezes, porém, já é tarde demais e o mal se tornou irremediável.
Os examinadores foram mesmo implacáveis com as provas de Zezinho e de Luizinho. O primeiro, com uma caligrafia rebuscada, escrevera: “Eu quero entrar para o PT”. O segundo, mais singelo e menos dramático, assim se expressou: “Eu quero entrar para a Família do Norte”. Consideraram eliminados os dois “candidatos”, ao argumento irretorquível de que todos haviam sido advertidos de que não era permitido “colar” e fizeram chegar aos pais a recomendação de que tomassem mais cuidado com as leituras de seus filhos. Pelo visto não chegava ao nível nem do Pequeno Príncipe.
Como o processo não era classificatório, as “provas” acabaram esquecidas numa gaveta qualquer do Ministério. Ninguém lhes deu mais a mínima importância e elas talvez sirvam apenas para, em um futuro remoto, um pesquisador desocupado se inteirar de que como funcionavam as mentes das crianças nos dias de hoje. Se isso vale alguma coisa, não sei. Só fiz contar o caso tal como me foi passado.

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