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Brasília: A Ilha de Marapatá

“Vá logo deixando / Senhor forasteiro / A sua vergonha / Em Marapatá”. Anibal Beça Dizem que foram instalados dois balcões informatizados da ilha de Marapatá no edifício circular do aeroporto de Brasília: um no embarque e outro no desembarque. De uso exclusivo das autoridades, até agora eram mantidos em segredo, mas foram revelados nesta semana como [...]

José R. Bessa Freire

“Vá logo deixando / Senhor forasteiro / A sua vergonha / Em Marapatá”.
Anibal Beça
Dizem que foram instalados dois balcões informatizados da ilha de Marapatá no edifício circular do aeroporto de Brasília: um no embarque e outro no desembarque. De uso exclusivo das autoridades, até agora eram mantidos em segredo, mas foram revelados nesta semana como única explicação possível para os recentes atos despudorados de senadores, deputados, ministros, inclusive do STF, que ultrapassaram todos os limites do decoro, da vergonha e da moral, fazendo coisas que até o diabo duvida.
Marapatá, uma ilha na foz do rio Negro, era a única porta de entrada de Manaus, quando não havia estradas e aviões. Desde os tempos coloniais, era parada obrigatória dos barcos. Reza a lenda que o forasteiro deixava lá sua vergonha para poder entrar na cidade sem qualquer freio moral. E aí valia tudo. Após fazer fortuna por meios ilícitos, ia embora do Amazonas. O barco dava outra paradinha para que, já rico, recolhesse a honra ali deixada e recuperasse a decência e a honestidade.
Lazareto de almas
Cantada em prosa e verso, Marapatá foi classificada como "um lazareto de almas" por Euclides da Cunha, numa época em que a lepra era vista com preconceito. Era lá que se escondiam os espíritos purulentos, o caráter dos trapaceiros e delinquentes. Foi lá que Macunaíma, o "herói sem nenhum caráter", deixou sua consciência pendurada em um mandacaru de dez metros para evitar ataques das saúvas, segundo Mário de Andrade.
O pesquisador amazonense Mário Ypiranga publicou, em 1963, no Jornal do Folclore, narrativa do velho Rufino Santiago, dono da serraria na enseada da ilha, habitada há milênios por um duende do bem, o Jumutimpora, que esconde algumas vergonhas para que os seus donos safados não as recuperem. Por isso, ainda hoje se pode ouvir gemidos de consciências perdidas na ilha assombrada, conforme relatos de cabocos ao historiador Antônio Loureiro, em quem confiaram por ser ele um honrado ING (indivíduo não-governamental).
Marapatá ganhou até canção com letra do nosso dileto poeta Anibal Beça e música de Armando de Paula: “É Marapatá, porta de Manaus, é Marapatá, patati patatá". Por essa porta passou há anos o atual governador do Amazonas José Mello (PROS vixe vixe), quando migrou de Ipixuna para a capital. Deixou debaixo de uma sapopemba sua consciência, que dá uivos lancinantes cada vez que Mello morde a merenda escolar.
Brasilha de Marapatá
Por transfigurar santo em devasso e vice-versa, a ilha de Marapatá assinou contrato de franchising com o Aeroporto de Brasília. Cada vez que uma autoridade desembarca na capital da República, deixa lá no balcão sua honra com seu nome, retomando o apelido revelado nas delações da Lava-Jato.  Quando embarca de volta às suas bases, passa no balcão e recupera seu nome e a cara de ilibado, de honrado. Todos eles possuem codinomes e apelidos.
Foi assim com o senador Romero Jucá - o "Caju" - líder do governo no Congresso. Ele teve o culhão - desculpem, não há outro termo - de propor na quarta (15) uma emenda constitucional para blindar o "Índio" Eunício Oliveira, presidente do Senado e "Botafogo" Rodrigo Maia,  presidente da Câmara, ambos citados na Lava-Jato. Por seu lado, no mesmo dia "Botafogo" conduziu aprovação do projeto de repatriação de recursos que incluía mulheres e parentes de políticos, que acabou sendo derrubada. Foi um teste, um balão de ensaio. Ambos recuaram, mas voltarão a atacar.
"Caju" foi aquele que propôs acabar com a Lava-Jato, na gravação com Renan - o "Justiça", então presidente do Senado, o que foi avaliado como "ataque gravissimo às instituições" por Teori Zavascki, morto logo depois em acidente aéreo. Só a ausência de qualquer resquício de vergonha e de pudor e a certeza da impunidade podem levar indivíduos pagos pelo contribuinte a legislar não no interesse público, mas para acobertar seus próprios delitos.
Foi o que fez o presidente Michel Temer (PMDB, vixe, vixe) ao nomear Moreira Franco, o "Angorá", citado 34 vezes nas delações, acusado de peculato e apropriação de recursos públicos, só para ter como ministro foro privilegiado. Isso com o aval de liminar do ministro do STF, Celso de Mello, que ignorou decisão de seu colega Gilmar Mendes proibindo a posse de Lula há apenas alguns meses. Dois pesos e duas medidas.
A ilha de Marapatá explica a escolha de suspeitos envolvidos em falcatruas para titular de ministérios. É impressionante! Com tanto brasileiro honrado, Temer só nomeia ficha suja com codinome nas delações da Lava-Jato. Um deles, Eliseu Padilha, "o Primo", ministro-chefe da Casa Civil, apontado pelo delator como o operador dos repasses destinados a Temer e investigado por receber propinas nas obras de Belo Monte, justificou publicamente o loteamento de cargos: fortalecer a base aliada do governo.
Alexandre de Moraes, indicado por Temer para o STF na vaga de Teori Zavascki, vai ser sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça presidida por Edison Lobão e já fez até um ensaio geral com alguns de seus réus no barco-motel no lago Paranoá. Agora, a Folha de SP (17/02) dá conta de que "Ministros do STF discutem libertação de Eduardo Cunha", o "Caranguejo". Não há qualquer preocupação de manter as aparências. O decoro, a decência, a compostura, estão perdidos na ilha de Marapatá. Só o Jumutimpora pode salvar o país.
“Vá logo deixando / Senhor forasteiro / A sua vergonha / Em Marapatá”. Anibal Beça Dizem que foram instalados dois balcões informatizados da ilha de Marapatá no edifício circular do aeroporto de Brasília: um no embarque e outro no desembarque. De uso exclusivo das autoridades, até agora eram mantidos em segredo, mas foram revelados nesta semana como única explicação possível para os recentes atos despudorados de senadores, deputados, ministros, inclusive do STF, que ultrapassaram todos os limites do decoro, da vergonha e da moral, fazendo coisas que até o diabo duvida.Marapatá, uma ilha na foz do rio Negro, era a única porta de entrada de Manaus, quando não havia estradas e aviões. Desde os tempos coloniais, era parada obrigatória dos barcos. Reza a lenda que o forasteiro deixava lá sua vergonha para poder entrar na cidade sem qualquer freio moral. E aí valia tudo. Após fazer fortuna por meios ilícitos, ia embora do Amazonas. O barco dava outra paradinha para que, já rico, recolhesse a honra ali deixada e recuperasse a decência e a honestidade. Lazareto de almasCantada em prosa e verso, Marapatá foi classificada como "um lazareto de almas" por Euclides da Cunha, numa época em que a lepra era vista com preconceito. Era lá que se escondiam os espíritos purulentos, o caráter dos trapaceiros e delinquentes. Foi lá que Macunaíma, o "herói sem nenhum caráter", deixou sua consciência pendurada em um mandacaru de dez metros para evitar ataques das saúvas, segundo Mário de Andrade. O pesquisador amazonense Mário Ypiranga publicou, em 1963, no Jornal do Folclore, narrativa do velho Rufino Santiago, dono da serraria na enseada da ilha, habitada há milênios por um duende do bem, o Jumutimpora, que esconde algumas vergonhas para que os seus donos safados não as recuperem. Por isso, ainda hoje se pode ouvir gemidos de consciências perdidas na ilha assombrada, conforme relatos de cabocos ao historiador Antônio Loureiro, em quem confiaram por ser ele um honrado ING (indivíduo não-governamental).Marapatá ganhou até canção com letra do nosso dileto poeta Anibal Beça e música de Armando de Paula: “É Marapatá, porta de Manaus, é Marapatá, patati patatá". Por essa porta passou há anos o atual governador do Amazonas José Mello (PROS vixe vixe), quando migrou de Ipixuna para a capital. Deixou debaixo de uma sapopemba sua consciência, que dá uivos lancinantes cada vez que Mello morde a merenda escolar.Brasilha de MarapatáPor transfigurar santo em devasso e vice-versa, a ilha de Marapatá assinou contrato de franchising com o Aeroporto de Brasília. Cada vez que uma autoridade desembarca na capital da República, deixa lá no balcão sua honra com seu nome, retomando o apelido revelado nas delações da Lava-Jato.  Quando embarca de volta às suas bases, passa no balcão e recupera seu nome e a cara de ilibado, de honrado. Todos eles possuem codinomes e apelidos.Foi assim com o senador Romero Jucá - o "Caju" - líder do governo no Congresso. Ele teve o culhão - desculpem, não há outro termo - de propor na quarta (15) uma emenda constitucional para blindar o "Índio" Eunício Oliveira, presidente do Senado e "Botafogo" Rodrigo Maia,  presidente da Câmara, ambos citados na Lava-Jato. Por seu lado, no mesmo dia "Botafogo" conduziu aprovação do projeto de repatriação de recursos que incluía mulheres e parentes de políticos, que acabou sendo derrubada. Foi um teste, um balão de ensaio. Ambos recuaram, mas voltarão a atacar. "Caju" foi aquele que propôs acabar com a Lava-Jato, na gravação com Renan - o "Justiça", então presidente do Senado, o que foi avaliado como "ataque gravissimo às instituições" por Teori Zavascki, morto logo depois em acidente aéreo. Só a ausência de qualquer resquício de vergonha e de pudor e a certeza da impunidade podem levar indivíduos pagos pelo contribuinte a legislar não no interesse público, mas para acobertar seus próprios delitos.Foi o que fez o presidente Michel Temer (PMDB, vixe, vixe) ao nomear Moreira Franco, o "Angorá", citado 34 vezes nas delações, acusado de peculato e apropriação de recursos públicos, só para ter como ministro foro privilegiado. Isso com o aval de liminar do ministro do STF, Celso de Mello, que ignorou decisão de seu colega Gilmar Mendes proibindo a posse de Lula há apenas alguns meses. Dois pesos e duas medidas. A ilha de Marapatá explica a escolha de suspeitos envolvidos em falcatruas para titular de ministérios. É impressionante! Com tanto brasileiro honrado, Temer só nomeia ficha suja com codinome nas delações da Lava-Jato. Um deles, Eliseu Padilha, "o Primo", ministro-chefe da Casa Civil, apontado pelo delator como o operador dos repasses destinados a Temer e investigado por receber propinas nas obras de Belo Monte, justificou publicamente o loteamento de cargos: fortalecer a base aliada do governo.Alexandre de Moraes, indicado por Temer para o STF na vaga de Teori Zavascki, vai ser sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça presidida por Edison Lobão e já fez até um ensaio geral com alguns de seus réus no barco-motel no lago Paranoá. Agora, a Folha de SP (17/02) dá conta de que "Ministros do STF discutem libertação de Eduardo Cunha", o "Caranguejo". Não há qualquer preocupação de manter as aparências. O decoro, a decência, a compostura, estão perdidos na ilha de Marapatá. Só o Jumutimpora pode salvar o país.

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