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Artigo: A Curiosidade da Helena

A um mês de completar quatro anos de vida, Helena Beatriz tem pisado fundo no acelerador da curiosidade. A fase dos “porquês” aflorou em toda a sua exuberância e as perguntas desconcertantes se sucedem. Caía um temporal tipicamente amazonense e ela, toda faceira e aconchegada no meu colo, lançou-me este verdadeiro desafio: “Vô, por que [...]

Félix Valois

A um mês de completar quatro anos de vida, Helena Beatriz tem pisado fundo no acelerador da curiosidade. A fase dos “porquês” aflorou em toda a sua exuberância e as perguntas desconcertantes se sucedem. Caía um temporal tipicamente amazonense e ela, toda faceira e aconchegada no meu colo, lançou-me este verdadeiro desafio: “Vô, por que a gente chama chuva de chuva”? Sábios de todo o mundo, eu os convoco para a solução do enigma. Seria eu um rematado cretino se tentasse explicar a origem latina da palavra, tentando convencê-la de que, com a evolução da língua, o “pluvia” acabou se transformando na nossa velha e cansada “chuva”. Simplesmente me calei, na esperança de que a volubilidade da criança se impusesse à cobrança da resposta, que o adulto não sabia dar. O milagre aconteceu e eu fui salvo do vexame por um membro da “patrulha canina”, uma cadelinha bombeira chamada Marshall, pela qual ela tem especial predileção, a ponto de usar uma fantasia da personagem.
Às vezes a pergunta é curiosa, mas, com o mínimo de esforço é possível encontrar uma explicação lógica. Deitada, mas embromando para não dormir, Helena se vira para a avó e ataca: “Vó, por que quando a gente pensa, pensa em shopping”? Bingo. A própria avó, se ficar uma semana sem ir a um shopping, passa mal e tem que ser acudida com sais aromáticos para evitar um delíquio. A mãe, a Lucinha, tinha dezesseis anos quando foi inaugurado o primeiro shopping de Manaus. Frequentou tanto a nova casa que eu lhe mandei fazer um cartão de visitas, dando como endereço o do empreendimento comercial. Temos, pois, que aí a genética é suficiente para dar a resposta adequada, conquanto os desdobramentos da curiosidade possam ter consequências catastróficas: já pensou se a pirralha pergunta “o que é genética”?
É melhor ficar por aí mesmo e torcer para que a Heleninha vá mantendo sua curiosidade voltada para coisas triviais que, mesmo quando não permitem uma resposta plausível, também não embaraçam muito. Deixemos que o verdadeiro tirocínio científico da criança venha na hora certa, de tal maneira que ela possa entrar na Universidade, sendo capaz de ter uma visão completa do mundo, entendendo-o como um todo e na sua integralidade. Não quero – e nem vai acontecer – que ela chegue ao nível superior precisando de que alguém lhe explique o alcance de um princípio básico como o da solidariedade, do qual decorre a postura fraterna com que temos o dever de encarar a humanidade. Evitará que ela se julgue (fenômeno que infelizmente não é raro), o centro do universo, assim como se de todos devesse esperar deferências, aquinhoando-os, quando muito com um aceno de condescendência.
Mas a verdade é que, fôssemos nós dar vazão à curiosidade que também nos assalta, inúmeras perguntas restariam sem uma resposta adequada. Por exemplo: por que Donald Trump é presidente do país que se auto intitula xerife da civilização ocidental e cristã? Na sequência: o que, diabos, vem a ser a civilização ocidental e cristã? Como eu não sei responder a nenhuma das duas indagações, ficam elas postas aí para que os de inteligência mais acurada e de cultura mais ampla possam esclarecer as dúvidas do meu rarefeito leitor.
Aliás, em matéria de leitura, forçoso é relembrar a figura do saudoso Umberto Eco, um dos homens mais eruditos dos últimos tempos. A partir da polêmica que ele criou na Itália, caberia formular outra pergunta: por que há tantas azêmolas que usam a internet para dizer coisas estapafúrdias sobre assuntos que não conhecem? É impressionante como a rede mundial de computadores passou a servir de nicho para essa gente. Numa linguagem incompreensível, as mais das vezes chula, tais opiniões vão do risível ao estúpido, revelando uma pobreza de espírito que causa dó.
Deixem-me, por favor, formular só mais duas perguntas. Por que o PT nunca fez um “mea culpa”? Se for de múltipla escolha, assinale sua opção: a) porque acha que nunca errou; b) porque o Lula não deixa; c) porque não se manca; d) todas estão corretas. E a derradeira: por que existem idiotas que, com um gosto musical deplorável, colocam o aparelho de som no volume mais elevado? Alternativas: a) acham que todo o mundo é estúpido e gosta das mesmas porcarias que eles; b) são sádicos; c) são surdos; d) são apenas idiotas mesmo.
Cartas para a redação com as respostas. Heleninha agradece.

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