Bons Ares
As cidades são para nós o que nos parecem. Quando se não a conhece o olhar é sempre mais atento, porém não isento de erros. Ao falar de uma cidade, quando apenas se passa por ela, há o risco de imprecisões.
Parte-se da avenida Nueve de Julio onde há inúmeros cafés, aliás o café de verdade é muito ruim. Nesta avenida há o Teatro Colón templo da cultura, a começar por sua arquitetura eclética, com vitrais, tetos dourados e espelho. O Teatro, como outros construídos nas cidades da América Latina, é muito bonito e demonstra algo do bom gosto da elite do final do século XIX que pelo menos deixou às futuras gerações estes legados no patrimônio das cidades.
Ainda na avenida Nueve de Julio há o Obelisco fincado no cruzamento com a avenida Corrientes, na qual há grande concentração de teatros, casas de show e por ela alcança-se a Plaza de Mayo, centro da vida política de Buenos Aires, não apenas pela sede do governo nacional, a Casa Rosada, mas por ser o lugar de manifestações.
A avenida Corrientes cruza a Florida, uma rua no estilo calçadão, como tantas outras na cidade, porém esta é especial pela possibilidade de se comer uma empanada feita na hora, pela grande variedade de lojas e pela profusão de brasileiros, algumas vezes comprando e outras tantas falando alto. Como detesto turismo de compras, talvez como desculpa de quem não tem dinheiro, valeu a passagem pela suntuosa livraria El Ateneo onde é possível escolher bons livros a preços acessíveis. Na esquina com a Córdoba localiza-se a Galería Pacífico. Para quem gosta e tem grana, ela possui lojas da moda, mas o que se destaca é a arquitetura do prédio, inspirada nas grandes galerias europeias como Vittorio Emanuele II de Milão. Considerado patrimônio nacional, já foi o Museu de Belas Artes. Perdido no último andar está o Centro Cultural Borges, algo deslocado naquela catedral do consumo.
Roteiro obrigatório são os bairros antigos. O mais famoso é o Recoleta, retrato da aristocracia argentina do século 19 que tentou trazer Paris para a América do Sul, como aliás fizeram em outras cidades, mas no caso específico, muita coisa veio, em especial a arquitetura. Mais ou menos no mesmo estilo, bem mais extenso, é o bairro de Palermo com muitas áreas verdes, centros culturais, planetário e museus. Era tanta coisa para visitar que fiquei meio apalermado, sentei num barzinho, tomei alguns chopes e não visitei nada. Aliás, não faltam na cidade esses pequenos barés aconchegantes com garçons simpáticos e que trazem a conta com um invariável “la propina no está incluida”.
De características muito particulares e bem diferentes dos bairros anteriores é o La Boca, contíguo à zona portuária. No bairro está o Caminito, mais que uma rua um museu a céu aberto, pois as janelas e os balcões estão cheios de obras de arte. É um lugar de cores vivas, com vários tipos de murais e esculturas, a maioria dedicada ao pintor Benito Quinquela Martín. Ainda em La Boca há o Museo de la Pasión Boquense, debaixo das arquibancadas de La Bombonera, estádio do Boca Juniors.
Como todo visitante de Buenos Aires fui ao show de tango. Escolhi Esquina Carlos Gardel, com excelentes dançarinos que se misturam em duas horas de uma apresentação marcante diversos estilos de tango, tudo impecável, embora eu não entenda nada de tango. Todavia, comida, bebida e atendimento são sofríveis, mas nada que não valha a pena ir ver.
Há outras tantas coisas a serem vistas, pois Buenos Aires não é só isso. Há outra cidade que não está nos roteiros turísticos. A cidade empobrecida que se ergue em prédios de apartamentos, conjuntos habitacionais, novos bairros, favelas, numa cultura perversa contra o patrimônio urbano que simplesmente ignorou o bom senso e o bom gosto de uma arquitetura construída no século XIX e primeiras décadas do século XX. Esta cidade está em bairros no caminho para o Aeroporto Ezeiza, numa autovia com nome bem sugestivo, Teniente General Ricchieri, ou nas áreas contiguas ao Porto, e que de resto corresponde à construção das cidades da América Latina do último quartel do século passado, caracterizada por um projeto político e econômico onde a ordem unida significava a sua essência. São verdadeiros caixotes de concreto, onde a aridez da atmosfera da economia de exclusão das populações pobres esconde a vigilância ideológica de uma época.
Lá, eles estão passando essa história a limpo.
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perfildoautor
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O autor é geógrafo e professor universitário.
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Parabéns Professor pelo belíssimo artigo.