A larga rua estreita
Não é uma rua qualquer, sequer tem nome ou status de beco a ruazinha estreita espremida entre muros. Nem por isso deixa de ser importante pela possibilidade da circulação de gente que vai trabalhar, estudar, rezar, ou fazer nada.
Na cidade, ações públicas como cuidar das praças, calçadas, ruas, coleta do lixo, circulação e acessibilidade, parecem pouco, mas são questões que garantem a relação do morador com o seu espaço e é onde se dá a existência real. Em decorrência, o poder público local, mais do que executor de políticas urbanas, deve ser o gestor do processo transformador e pedagógico, especialmente quando garante a cada citadino a possibilidade do usufruto das coisas que lhe diz respeito. Esta visão aponta para o entendimento de que só melhoraremos a cidade compreendendo-a como espaço público, como coisa pública, passando a ser definida não pelo domínio individual ou de grupos, mas pela multiplicidade de usos coletivos.
Em nossa Manaus a dimensão de cidade como um bem coletivo parece cada vez mais distante. Os exemplos são muitos, mas quero tratar, como escrevi no início, daquela ruazinha, modelo de nossa omissão e de como o direito à cidade como espaço coletivo é negligenciado.
A ruazinha está localizada quase em frente à entrada do Campus Universitário da Ufam. De rua passou a ruazinha, visto que estreitada pelo avanço do muro sobre uma área que pelo uso já se tornara espaço público, porque era o caminho por onde todos passavam. Do lado oposto, duas escolas públicas foram construídas e cercadas por outros muros. Só asfalto existe engolindo as calçadas e os passantes que procuram acesso à via principal, disputam com veículos a possibilidade de circulação. Para minorar, proibiram a circulação de carros num sentido, mas isso é paliativo, a solução é colocar o muro no lugar certo. Não vamos consertar um erro com outro, por favor não mexam com os muros das escolas ou das casas contiguas.
Como o muro que avançou no espaço da rua transformando-a em ruazinha é de uma instituição religiosa, recorro à Bíblia para indagar se Jó não estaria antevendo o urbano de Manaus quando respondeu ao discurso de Elifaz? “Alguns deslocam os marcos dos limites, ignoram os necessitados, conspiram para oprimir os desamparados. Dificultam a vida dos pobres. Ceifam o campo que não lhes pertence, esbulham a vinha injustamente tomada de seu dono”.
No nosso agora, não é possível permitir tamanho abuso contra a cidade e a sua gente. É necessário cuidar de ruas e calçadas, permitindo que instituições e citadinos ocupem o espaço público com equidade. É preciso que o guarda do quarteirão, o comissário, o delegado, o promotor, o juiz e quem sabe o prefeito façam alguma coisa. É só uma ruazinha. É quase nada, mas que, se tivesse calçada, faria bem a tanta gente. Nada que o espírito coletivo não resolva. Na ausência de outros meios, apliquem as leis dos homens, afinal, ninguém aqui na terra está acima ou abaixo delas. Façamos isso e a ruazinha estreita ficará larga.
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perfildoautor
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O autor é geógrafo e professor universitário.
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Professor, alem de acessibilidade e mobilidade esta ruazinha, assim como tantas outras de Manaus e tantas outras cidades brasileiras, merece saneamento basico, sistema de drenagem, entre outras coisas como votade de todos de torna-la mais bela e agradavel…
VA CUIDAR DOS FUNCIONARIOS DA UEA, QUE VOCES DO PT REDUZIRAM OS SALARIOS EM 50% E NAO VALORIZAM O ESFORÇO DELES