A capital do medo
Os números são preocupantes. Aos poucos, a violência toma conta de vez dos bairros, ricos ou pobres, faz morada em cada esquina, e a cidade já vive hoje sob o império do medo. Não à toa, pesquisa do Ministério da Justiça, segundo a Veja desta semana, revela que Manaus, entre as 27 capitais, tem o maior índice, 83,9%, de pessoas que evitam sair à noite ou chegar tarde em casa por causa da criminalidade. Em outras palavras, a população está com medo, e com razão. Afinal, só este ano a cidade já registrou uma média de 3,1 homicídios por dia, sendo que na última semana, de acordo com a imprensa, em apenas 16 horas foram quinze assassinatos. Convenhamos, uma situação a demonstrar que começa a fugir de controle dos órgãos competentes. E é aí que mora o perigo, porque então teremos o caos definitivamente instalado e todos reféns do crime organizado.
Embora a maioria das mortes registradas tenha sido motivada por discussões banais, envolvendo brigas de jovens, outras, no entanto, cujas vítimas teriam algum tipo de envolvimento com o tráfico de drogas, foram por vingança ou “acerto de contas”. E o problema preocupa, sobretudo por dois motivos: primeiro, o crescimento de crimes violentos numa cidade ainda de porte médio, longe, portanto, de outras metrópoles que contam hoje com mais de 10 milhões de habitantes e têm toda uma tradição de verdadeira guerra urbana. Segundo, porque demonstra mais uma vez, aqui e ali, a presença de profissionais exercendo sua missão, sem receio como já ocorreu num passado recente. E mais grave: impunemente.
No entanto, é verdade também que o governo vem procurando melhorar o sistema de policiamento, como por exemplo, o projeto chamado “Ronda no Bairro”, com mais PMs nas ruas, de forma ostensiva, principalmente nas áreas mais distantes do centro. Já é um começo. Mas só isso não basta para enfrentar com mais rigor e competência a criminalidade. Antes, é preciso um planejamento mais efetivo de segurança, com ações e serviços de inteligência que de fato funcionem na prática, semelhante ao de outros Estados.
Hoje, o que está acontecendo na nossa tão tranquila e pacata Manaus de outros tempos, apenas retrata a crescente escalada da violência cada vez mais audaciosa, que aos poucos vai tomando conta do país todo e ninguém em qualquer lugar está livre de sequestros, assaltos, atentados, homicídios, execuções e outros. Seja em cidade grande ou pequena. A realidade é que a sociedade está assustada, a população está com medo, e não sem motivo. Afinal, quando o poder público se mostra incapaz de garantir ao cidadão direitos mais elementares como o de andar nas ruas sem qualquer ameaça à sua integridade física e patrimonial, o que falta mais acontecer. Fala-se muito em direitos humanos, mas se esquece que eles estão estabelecidos na lei e devem valer para todos, independentemente de morarem em favelas ou não.
É claro que a solução para o problema não é simples e não vai acontecer da noite, para o dia. Mas é preciso agir e com urgência antes que o caos se instale definitivamente. É o mínimo que a sociedade espera. Falta competência, ação e vontade política. Só isso.
perfildoautor
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O autor é desembargador do TJAM.
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