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Conduzido ao quartel do Exército no bairro São Jorge, Amazonino foi mantido preso por mais de quatro meses.

Abril de 1964, segunda quinzena. O clima dia a dia tornava-se mais pesado. O governador Plínio Coelho pintava e bordava, dava a vida, para manter-se no cargo. Acabara de oferecer um jantar ao general Jurandir Bizarria Mamede, na chamada pérgula do Hotel Amazonas, na época o local mais elegante da cidade. Na ocasião proferiu longo discurso laudatório em homenagem ao militar presente e a todos os golpistas que haviam assaltado o poder constitucional no país. Mandou às favas sua biografia política, toda ela construída no mesmo PTB do presidente deposto João Goulart, na sôfrega esperança de continuar no comando do Palácio Rio Negro.

No ambiente, já irrespirável, militares do Exército de média patente, capitães, majores e coronéis, travavam luta fratricida pela conquista do governo do Amazonas. Portanto, era preciso mostrar serviço, prender o máximo de comunistas e subversivos, reais ou imaginários, mesmo aqueles que não poderiam oferecer a menor resistência, como no caso de Belarmino Marreiro, Campos Dantas e Licurgo Cavalcanti, todos com idade bem avançada. Afinal, assim contariam pontos preciosos na corrida enlouquecida pela substituição de Plínio Coelho, sem jamais imaginarem que o novo governador já estava escolhido por Castelo Branco, na pessoa do intelectual e historiador Arthur César Ferreira Reis.

Na outra ponta, do lado de cá, a angústia, o tormento da derrota e o sentimento de desesperança tomavam conta de todos nós, perdidos e sem saber o que fazer no coração da selva amazônica. Os jornais, sem uma única exceção, defendiam o golpe militar e em suas edições diárias anunciavam em manchetes exageradas as prisões que começavam a ser feitas em Manaus.

Amazonino Mendes, na condição de líder o mais expressivo do movimento estudantil amazonense, com inserção nacional reconhecida, tinha prisão anunciada. Ainda assim, não se evadiu e arrostou o medo. Já casado e pai do primeiro filho, preferiu permanecer na rotina de uma vida pessoal difícil, agravada pela nova e sufocante realidade que o Brasil passou a experimentar.

O Café do Pina, nossa tribuna inexpugnável, a República Livre do Pina, onde enfrentávamos a truculência do governo Plínio Coelho, expressava a imagem da solidão, do vazio que doía na alma. Lá, chegávamos agora assustados, quando chegávamos, devagarinho, olhando de lado. À noite, na expectativa de que estaríamos um pouco mais protegidos pela escuridão, ainda conseguíamos fazer uma ou outra roda de amigos e companheiros. E foi ali, entre sussurros entrecortados de temor, que recebemos a notícia da prisão de Amazonino Mendes, ocorrida num final da tarde, 20 dias após o golpe, no interior da Faculdade de Direito.

Encerrava-se um dia de céu azul esplêndido, sem nuvens, belo mas perverso. Amazonino, a caminho da Faculdade, passou pela Drogaria Fink.  Com o paletó sobre os ombros, de uso então obrigatório para os estudantes de Direito, comprou tubo de pasta e escova na farmácia do velho judeu, com o vivo e premonitório sentimento de que poderia ser preso a qualquer momento. Não deu outra, poucos minutos após sua chegada à ‘Velha Jaqueira’, recebeu voz de prisão no pórtico do antigo prédio da Praça dos Remédios, anunciada em tom agressivo pelo conhecido capitão Amazonas. Três jipes do Exército estacionados em frente, com vários soldados portando baionetas caladas e metralhadoras, aguardavam pelo mais novo prisioneiro da ditadura militar recém instalada.

O estudante Afrânio de Sá, mais tarde conselheiro e presidente do Tribunal de Contas do Estado, ontem e hoje, amigo querido, com extrema coragem, característica de sua personalidade, foi o único a esboçar reação, ao lavrar sua indignação em alto e bom som contra a prisão arbitrária de seu colega, incrível, nas dependências da Faculdade. Um acinte, uma violência intolerável, como disse em ensaiado discurso de protesto logo contido por Amazonino, que preferiu deixar-se prender em silêncio, sem reação, ainda assim, altaneiro e imperturbável. Com dignidade, senhor de suas verdades e consciente da ideologia com a qual vinha formando sua liderança, desceu os poucos degraus da escada central da Faculdade para entrar no único jipe sem capota, no qual desfilou pela cidade, em nítida ação de intimidação dos estudantes e da população de Manaus.

Conduzido ao quartel do Exército no bairro São Jorge, foi mantido preso por mais de quatro meses, ao lado de tantos outros, patriotas honrados e cidadãos amazonenses, de repente considerados perigosos subversivos.

  1. José Raimundo Silva says:

    Concordo com a visão pitoresca da contra revolução de 64 e tenho certeza que o movimento cometeu vários equívocos, todavia o cenário de uma ditadura comunista instalada no Brasil teria sido inúmeras vezes pior e até hoje estaríamos sentindo seus efeitos nefastos, basta olhar a história da europa e da ilha de Castro.

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