A força da opinião pública
A restruturação da presença do Estado na vida brasileira, agora, sem dúvida, ganhou elementos inesperados trazidos para o seu debate pelas gravíssimas revelações do mais novo escândalo nacional, envolvendo membros do Executivo e do Legislativo. No entanto, convenhamos, o caso Carlinhos Cachoeira apenas veio comprovar uma situação que se sabe há muito tempo. Aliás, não é mais novidade para ninguém. Até porque, não raro, quase sempre foram promíscuas as relações do público com a iniciativa privada em todo país, desde os tempos da República Velha. Só que nos últimos anos elas aumentaram muito.
A verdade é que desde o suicídio de Vargas, a renúncia de Jânio e o impeachment de Collor, o Brasil não vivia uma crise tão séria. Talvez sem precedentes na sua história republicana, porque envolve num escândalo de grandes proporções, autoridades e políticos de dois poderes. E isto é apenas o que se sabe até aqui, ou seja, a existência de uma extensa rede criminosa de servidores públicos, parlamentares e empresários que em conluio assaltavam o Estado brasileiro, há mais de 20 anos.
Por isso, o país aguarda com ansiedade e grande expectativa o último ato dessa triste novela. O que vai acontecer no final das investigações de tantas denúncias? Todos os envolvidos nesses escândalos serão realmente punidos? Devolverão o dinheiro roubado da nação? Teremos um país melhor, com mais transparência e fortalecimento da democracia? Essas são algumas das questões que no momento a sociedade está fazendo. Aliás, o Brasil todo está fazendo, em cada esquina e em cada mesa de bar, mas sem muita esperança.
Vale lembrar que várias propostas tramitam atualmente no Congresso prevendo penas mais severas para os crimes praticados contra a administração pública, porém até hoje nenhuma teve êxito. A própria CPI do Orçamento, em seu relatório final, na época, encaminhou outras, mas também ficou tudo só no papel e nada foi feito.
No entanto, é bem verdade também que o simples aperfeiçoamento das instituições não seria suficiente para enfrentar esse desafio, porque como nos ensinou Carlos Drummond: “As leis não bastam. Os lírios não nascem das leis”. (Rosa do Povo). Antes, é preciso sobretudo fazer uma revolução cultural e de costumes sem precedentes no país, a começar pela seleção dos candidatos. Mas enquanto isso não acontece, o jeito mesmo é apelar para a imprensa, porque só assim com a força da opinião pública, poderemos evitar que o Brasil continue sendo uma imensa Pasárgada onde são felizes os desonestos e os amigos do rei, como sempre escudados no manto sagrado da impunidade. Até quando? Só Deus sabe…
perfildoautor
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O autor é desembargador do TJAM.
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