500 anos de abandono
No último dia 19, o Brasil comemorou o Dia do Índio, a data foi escolhida por motivo da realização do I Congresso Indigenista Interamericano no México, em 1940. Agora, perguntar não ofende, comemorar o quê? Diante de tantas injustiças cometidas contra os povos indígenas ao longo da história, festejar mesmo só se for fome, miséria, sofrimento e extermínio. Um massacre, aliás, que vem desde o descobrimento.
Lamentavelmente, a verdade é que aqui o poder público, através de sucessivos governos, sempre viveu de farsas e aparências ao demonstrar perante outros países que esse extermínio é coisa do passado. Pura hipocrisia, porque o que se vê é a repetição desses mesmos problemas nas novas fronteiras de expansão econômica, onde as questões nas áreas de convivência entre índios e não-índios têm sido cada vez mais intensas, desde a época da chegada dos primeiros colonizadores.
Enquanto isso, o descumprimento da Constituição, que determinou o prazo de cinco anos para que todas essas terras fossem demarcadas e homologadas continua sendo apontado como o principal motivo da violência contra os índios.
Como se vê, o governo, longe de defender os reais interesses indígenas tem, ao contrário, abandonado todos à própria sorte, tratando-os como verdadeiros animais, sem nenhum respeito aos direitos humanos. Pior, sem respeito à identidade cultural e à tradição dessas nações.
Sem dúvida, a defesa dessas minorias cessou mesmo em 1958 com a morte de Cândido Rondon que, como um herói, dedicou toda sua vida à causa indígena, tornando na época famoso o lema: “Morrer, se preciso for; matar, nunca”. Quem melhor definiu a vida e a obra desse ilustre brasileiro foi Darcy Ribeiro, ao lembrar que “ele foi o grande herói do nosso povo, a personalidade mais vigorosa, mais generosa que produzimos. Este povo de índios, de negros e de brancos, que construiu uma civilização nos trópicos, através dele exprimiu o melhor de si mesmo, de seus anseios de fraternidade, de paz e de progresso”.
Porém, quem retratou muito bem a situação de penúria dessas etnias hoje no Brasil foi mesmo Jorge Benjor, ao dizer em sua música que “antes, todo dia era dia de índio”, lembrando de quando eles eram donos da terra há 500 anos. Mas em outra estrofe, Benjor lamenta que “agora eles só têm mesmo o dia 19 de abril para comemorar…”.
perfildoautor
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O autor é desembargador do TJAM.
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