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500 anos de abandono

No último dia 19, o Brasil comemorou o Dia do Índio, a data foi escolhida por motivo da realização do I Congresso Indigenista Interamericano no México, em 1940. Agora, perguntar não ofende, comemorar o quê? Diante de tantas injustiças cometidas contra os povos indígenas ao longo da história, festejar mesmo só se for fome, miséria, sofrimento e extermínio. Um massacre, aliás, que vem desde o descobrimento.

Ainda em 1559, milhares deles foram cercados pelos homens de Mem de Sá na praia de Cururupe, em Ilhéus. Na ocasião, a maior parte morreu afogada no mar. Em seguida, os corpos foram estendidos um após o outro, somando 8 quilômetros de índios mortos na areia. O episódio é considerado até hoje o maior massacre desses povos nas Américas. Mas isso era apenas o começo de séculos de abandono e sofrimento. Para se ter ideia de todo esse genocídio, basta mencionar esses dados: segundo o Conselho Indigenista Missionário – CIMI, mais de 1.400 nações foram extintas no Brasil ao longo de 500 anos. Esse órgão denuncia ainda que na última década a violência contra as comunidades vem aumentando, pois só durante esse período já houve cerca de 400 homicídios.

Lamentavelmente, a verdade é que aqui o poder público, através de sucessivos governos, sempre viveu de farsas e aparências ao demonstrar perante outros países que esse extermínio é coisa do passado. Pura hipocrisia, porque o que se vê é a repetição desses mesmos problemas nas novas fronteiras de expansão econômica, onde as questões nas áreas de convivência entre índios e não-índios têm sido cada vez mais intensas, desde a época da chegada dos primeiros colonizadores.

Enquanto isso, o descumprimento da Constituição, que determinou o prazo de cinco anos para que todas essas terras fossem demarcadas e homologadas continua sendo apontado como o principal motivo da violência contra os índios.

Como se vê, o governo, longe de defender os reais interesses indígenas tem, ao contrário, abandonado todos à própria sorte, tratando-os como verdadeiros animais, sem nenhum respeito aos direitos humanos. Pior, sem respeito à identidade cultural e à tradição dessas nações.

Sem dúvida, a defesa dessas minorias cessou mesmo em 1958 com a morte de Cândido Rondon que, como um herói, dedicou toda sua vida à causa indígena, tornando na época famoso o lema: “Morrer, se preciso for; matar, nunca”. Quem melhor definiu a vida e a obra desse ilustre brasileiro foi Darcy Ribeiro, ao lembrar que “ele foi o grande herói do nosso povo, a personalidade mais vigorosa, mais generosa que produzimos. Este povo de índios, de negros e de brancos, que construiu uma civilização nos trópicos, através dele exprimiu o melhor de si mesmo, de seus anseios de fraternidade, de paz e de progresso”.

Porém, quem retratou muito bem a situação de penúria dessas etnias hoje no Brasil foi mesmo Jorge Benjor, ao dizer em sua música que “antes, todo dia era dia de índio”, lembrando de quando eles eram donos da terra há 500 anos. Mas em outra estrofe, Benjor lamenta que “agora eles só têm mesmo o dia 19 de abril para comemorar…”.

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