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Uma falsa representação

O dicionário o Houaiss é claro: ‘Representar’ é ser a imagem, ou a cópia, de alguém. É ser embaixador, procurador, estar em nome de alguém. Também pode ser um ator ao interpretar um personagem. Não há dúvidas nos enunciados. Representante é, pois, ter autoridade e legitimidade para defender os interesses de outro e não outros interesses. É uma função de alta estirpe moral, porque exige comportamento ético inquestionável e intransigente senso de justiça.

Na política brasileira, conta-se nos dedos das mãos os candidatos que assumem esse compromisso com princípios públicos. A maioria se apresenta como atores, canastrões, com nítida intenção de representar a si mesmos para garantir os próprios interesses. Traem o eleitor ao preferir a promoção à representação. Nas campanhas eleitorais se mostram paladinos da Constituição, mas abandonam os parlamentos por cargos no Executivo tão logo são eleitos. Se essa era a intenção, por que ser candidato? Se não era, por que não declinar do convite para ser gestor e reforçar a representatividade da legislatura?

Porque esse tipo de candidato não vê o parlamento como uma instituição inclusiva da sociedade, que cria as condições para propiciar oportunidades ao maior número possível de pessoas e estimular a integração e o bem-estar social, mas como trampolim para o enriquecimento fácil, em muitos casos ilícito, e aquisição de poder político. Ao desprezar a confiança do eleitorado, os falsos representantes enfraquecem Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional como instituições de equilíbrio da democracia.

Ao ser passado para trás, o cidadão perde a própria legitimidade política e o Legislativo a sua representatividade institucional pública. Câmaras municipais, Assembleias e o próprio Congresso deixam de ser o contrapeso do equilíbrio entre os poderes, indispensável à democracia, e tornam-se um poder a mais contra o bem-estar e os direitos da sociedade. Ainda que a maioria dedique apoio aos governos, o que também é um princípio da democracia, essa unanimidade não pode ser totalmente submissa a ponto de perder sua legitimidade política.

Não se pode culpar esses ‘representantes’ por virar as costas aos seus representados. Nos arranjos eleitorais já demonstram inclinação à infidelidade eleitoral ao assumirem afinidade com os líderes políticos. As campanhas são planejadas para se garantir esse apoio e o maior número de votos para formar o coeficiente eleitoral, que permite eleger candidatos com pouquíssimos votos. Cabe ao eleitor identificar essa propensão e eliminá-la nas urnas, evitando perder a representatividade política. Também se previne contra a formação de uma  elite espoliadora, que não vê problemas em saquear o Estado porque se omite da obrigação de fiscalizá-lo. O voto também é uma instituição que funciona como contrapeso aos abusos políticos.

Avaliar a atuação desses ‘representantes’ nos cargos executivos é um bom exercício para conhecer se os serviços públicos que deveriam prestar foram satisfatórios ou deixaram a desejar. O eleitor pode começar com o grupo de vereadores-secretários, ou secretários-vereadores, que se desincompatibilizou da Prefeitura de Manaus para reassumir as cadeiras na Câmara Municipal. Esse retorno é tão somente para disputar a reeleição, sem nenhuma garantia de que vão cumprir a representatividade legislativa. Não custa nada inquiri-los, quando começarem a pedir votos, se pretendem manter a mesma postura.

Ao eleitor cabe a função de juiz para julgar qual resposta é franca ou a mais deslavada das mentiras. Na aceitação de votar num representante para ficar sem representatividade, não poderá se queixar depois. Escolhas são escolhas, para o bem e para o mal. Deve-se ter em mente que eleição não é uma seletiva de atores para viver papéis fajutos de vereadores, mas a autorização para que eles sejam a sua imagem política. Irão agir em seu nome. Você é quem decide se quer ser bem ou mal representado.

  1. angelice de oliveira says:

    Quando vc cita, “conta-se nos dedos das mãos os candidatos que assumem esse compromisso com princípios públicos”.È culpa do próprio eleitor quando vai votar, não faz uma pesquisa sobre seu canditato,se é ficha limpa ou suja,enquanto o eleitor não tiver consciencia em quem estão votando o politica no País será uma “sujeira”,caso contrário, certamente teremos bons politico.

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