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A antropologia explica

Até que ponto determinado hábito é cultural e a partir de quando ele interfere nos direitos humanos?

Li este artigo do jornalista Clóvis Rossi ontem e passei o dia refletindo sobre ele. Uma das coisas que mais me intriga no ser humano é a capacidade de “superiorizar” sua própria cultura, como se esta fosse o parâmetro para analisar e julgar as demais. O que mais me choca é que alguns artigos, por mais simples e inofensivos que pareçam, escondem uma intolerância enrustida, que com a ajuda de veículos de comunicação fortes e formadores de opinião, ajudam a semear este pensamento individualista e egoísta. A antropologia explica.

Em um sentido micro, a intolerância te leva a analisar a questão com esta visão de superioridade, ao considerar que o outro tem essa ou aquela atitude e que ela é, de alguma forma, errada. É comum vermos isto inclusive com culturas diferentes pertencentes ao mesmo país. Não precisamos ir muito longe, aqui mesmo no Amazonas existe um conflito sociológico e antropológico sobre hábitos indígenas que a sociedade “civilizada” condena. Um exemplo? O ritual da tucandeira ou o fato de algumas tribos matarem bebês que nasçam deficientes. A questão é muito mais complexa: até que ponto determinado hábito é cultural e a partir de quando ele interfere nos direitos humanos? A partir de quando os “civilizados” podem interferir nestes hábitos? Quem decide o que é interferência no direito humano e o que não é? É exatamente aí, nesta linha tênue – quase transparente, que reside o perigo.

Não há como, de forma alguma nem por qualquer indivíduo, generalizar determinado tema. Mesmo aqueles que defendem que o direito à vida é universal vão perceber que ele não pode ser universalizado, mas deve sim ser relativizado. Se o direito à vida é universal, a pena capital de países ocidentais (como os EUA, que ainda se utilizam do método do enforcamento e da cadeira elétrica) se iguala à pena capital empregada por determinados muçulmanos às mulheres adulteras. Como não? Atentou-se contra a vida em ambos os casos, a diferença reside apenas no que é considerado crime ou não. E quem vai decidir o que é crime ou não? Cada sociedade impõe seus próprios parâmetros, e é daí que vem a relativização. Cada sociedade escolhe o que é melhor para si, o que lhe cabe mais. E não vale apontar o dedo na cara do outro depois disso.

Não estou defendendo a pena de morte e muito menos que mulheres sejam apedrejadas em praças públicas. Em um mundo perfeito, a liberdade e o livre-arbítrio consciente seriam os parâmetros individuais para as pessoas viverem harmonicamente em sociedade. Como isto é apenas a imaginação de um mundo idealizado, cada sociedade criou seus próprios parâmetros de convivência. E não cabe a mim dizer que o do outro está errado e o meu certo. E igualmente o contrário.

Digo isto porque o que me incomodou neste artigo foi a visão extremamente preconceituosa de uma pessoa que passou a morar em um país com uma cultura completamente diferente. “(…) Gostava muito da liberdade de poder sair a qualquer hora. Aqui, depois das 22, sozinha, não tem jeito. (…) Sem o conforto de uma roupa é meio chato, mas tenho ido a alguns lugares. Nesses momentos, você pode abstrair e se sentir em Nova York ou em qualquer capital européia, pois são lugares bacanas, embora sem álcool e com o ‘ ‘dress code’ daqui (…)”. É muito fácil uma brasileira, acostumada a usar roupas curtas quentes e leves, sair e chegar à hora que bem entendesse, falar mal das mulheres “enclausuradas” do Irã. É muito fácil se indignar pelo jeito como lhe olham ou lhe tratam quando seu tornozelo fica à mostra. Difícil é entender que aquele hábito faz parte daquela cultura e que na verdade, naquele ambiente, a pessoa errada é você. Se uma iraniana viesse ao Brasil, ela também se sentiria desconfortável por ver peitos e bundas à mostra o tempo inteiro. Quem está certo? Quem está errado? Ninguém. É tudo uma questão de tolerância e convivência. Se aquelas mulheres usam o véu e se cobrem dos pés à cabeça, e NÃO RECLAMAM POR ISSO, por que eu, que não nasci naquele meio, que não sou daquela cultura, devo reclamar? Afinal, estou ali por escolha própria.

Poderia escrever páginas e páginas sobre isso, mas meu objetivo é outro: chegar na questão macro da coisa. O que objetiva a guerra Irã x Iraque? O que move o ETA ou o IRA? Intolerância religiosa, política, social. Levando da questão micro para a macro, vejam onde isto pode chegar. Tudo pela intolerância. O pensamento é o mesmo, o que muda é o ímpeto, o desejo de “superiorizar” sua cultura, e o quão disposto se está para provar isso. Claro está que é impossível para qualquer ser humano compreender todos os aspectos de infindáveis culturas ao redor do mundo. Mas aceitá-los e não menosprezá-los já é um grande passo.

  1. Luís Henrique says:

    Sempre perfeita escrevendo. Parabéns por mais um ótimo texto.

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