Columbine brasileiro
Nunca pensamos que certas situações podem acontecer bem ao nosso lado. Sempre temos o “pré-conceito” de que certos tipos de atos só acontecem com os outros, em lugares bem distantes, fora do nosso alcance e dor. Hoje, levamos um belo tapa na cara.
Que atire a primeira pedra quem não tinha o pensamento (por que não dizer inocente?) de que os tipos de crimes “Columbine” só aconteciam nos Estados Unidos. – Estes loucos que entram em escolas e saem atirando em todo mundo tinham que ser dos Estados Unidos, aquele país de doidos. Hoje não foi bem assim.
No Rio de Janeiro, bem ali, um lugar no qual seu filho poderia ser o aluno, foi invadido e corrompido. Uma escola, lugar onde crianças passam o tempo estudando, aprendendo, vivenciando, hoje virou notícia por razões muito diferentes das que citei.
Impossível entender o por quê. Não há porque. Não há razões nem explicações para uma pessoa entrar em uma sala de aula e simplesmente abrir fogo contra crianças. Eram crianças. E não haveria nada que justificasse o ato contra adultos, mas ainda assim nos dói o coração pensar que eram “apenas crianças”. Impossível não pensar nas famílias que esta manhã disseram “boa aula” e depois receberam a triste e inconsolável notícia.
O pior é que atos tão “terroristas” quanto acontecem todos os dias e já estão tão comuns que já nem são mais tão “terroristas” assim. Crianças e adultos violentados, assassinados, estupradas, açoitados, massacrados, abandonados. Todo santo dia. Como não considerar esta uma violência tão cruel quanto? Como considerar um tipo de violência pior do que outra? Não sei se a ousadia de classificar em escalas estes atos nos alivia, mas fato é que não ajuda em absolutamente nada.
Um dia que celebra a profissão do jornalista, tivemos um banho de exemplos de como não cobrir desgraças, não sensacionalizar, não explorar a dor alheia. Mas infelizmente, a angústia ainda atrai audiência. Eu, como jornalista, não gostaria de ter lido e visto muitas coisas que vi e li sobre a tragédia de hoje. Se elas vão ajudar ou não que outros crimes como este deixem de acontecer eu não sei. O que eu sei é que as doze famílias que perderam suas crianças e as outras tantas que ainda podem perder nunca mais serão as mesmas. Nem nós.
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perfildoautor
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Jornalista por vocação, bailarina por aptidão, fotógrafa amadora por opção, cozinheira por hobby, dona-de-casa por convicção, pensante por necessidade.
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Após o choque, a reflexão.
Diante de vários comentários expressos nos jornais e demais meios de comunicação sobre o massacre de realengo, no Rio de Janeiro, onde mais de uma dezena de crianças foram executadas a tiros em sala de aula por um ex-aluno da escola, gostaria de iniciar esta reflexão comentando a corrente e revoltada expressão de que “alguém que faz uma coisa dessas não tem Deus no coração”. Fica claro, nesta carta deixada pelo assassino que a ideia que ele mais tinha na mente e no coração era “Deus” e seus ensinamentos bíblicos. A bíblia tem sido um livro cultuado, adorado e utilizado na educação de nossos jovens e crianças a séculos, mas como qualquer outro livro ou qualquer outro discurso, está sujeita a interpretação de quem a lê. O ponto a ser discutido aqui não é “crer ou não crer”, mas sim como este ensinamento cristão está chegando aos nossos jovens, e principalmente como está sendo digerido e utilizado por eles. Acredito que nossos jovens devem ser ensinados a amar os seres humanos e a vida sob todas as outras coisas e não o contrário. Quando se ama um Deus acima de todas as coisas, isso quer dizer que todas as outras coisas assumem menor importância (inclusive a vida de crianças inocentes) diante dos mandamentos de um “ser espiritual”, o qual ninguém vê. “Amar a Deus sob todas as coisas” é um mandamento que está acima do amor ao próximo, portanto a vida do ser humano torna-se insignificante diante dos mandamentos de Deus.
Nosso assassino amava a Deus sob todas as coisas, inclusive sob si mesmo. Ele se achava um anjo escolhido por Deus para trazer o apocalipse, punição, a ira de Deus àqueles que não aceitavam seus ensinamentos; se considerava um instrumento usado por Deus para destruir os impuros, pois Deus não executa ninguém, ele sempre envia seus servos, anjos ou o que quer que seja para executar o serviço. O massacre que aconteceu na Escola Tasso de Oliveira, no Rio de Janeiro, bem como o sacrifício de Wellington Menezes, não é diferente das atitudes dos terroristas do Islã. Ele morreu acreditando que fazia a vontade de Deus, no melhor estilo: “Matar um infiel (ou impuro) não é pecado”. Na Idade Média, os crimes da Igreja católica cometidos em nome de Deus e do cristianismo com justificativas ideológicas parecidas com as que vemos nesta carta deixada pelo assassino, não eram menos horríveis enquanto buscavam a punição e a conversão dos infiéis.
Não sou contra o cristianismo, mas sou contra o modo como ele pode estar sendo utilizado para embasar ideologicamente atos tão bárbaros como este. Torna-se urgente acompanhar de perto não só nossos jovens, mas também a educação que está sendo dada para eles. É preciso rever o modo como a educação cristã está sendo colocada pelas instituições religiosas, o modo como ela está sendo absorvida pelos nossos jovens e como está sendo interpretada e utilizada por eles. Senão o cristianismo vai deixar de ser uma fonte de força e esperança para se tornar um agente da morte e do terror. Já vimos isso acontecer em nossos livros de história, e estamos vendo acontecer de novo em nossos dias. Precisamos mudar a história agora, e só nós podemos fazer isso, ninguém mais!
Alguns comentários na internet dizem que ele foi manipulado pelo diabo para fazer o que fez, e que esta é a única explicação possível. Acho isso um pensamento bastante perigoso, pois enquanto ficarmos atribuindo a responsabilidade de nossos atos, e as conseqüências destes, a seres invisíveis e espirituais, estaremos deixando de procurar as causas reais dos problemas que nos afligem, deixando assim de propor soluções ou caminhos reais para a solução destes problemas. É muito mais fácil dizer que tudo isso é “obra do diabo”, do que assumir a responsabilidade por nossa omissão enquanto cidadãos que deveriam educar, cuidar e proteger nossas crianças e adolescentes de qualquer tipo de humilhação ou violência física, verbal ou moral como diz nosso tão belo, mas ineficaz, estatuto da criança e do adolescente.
Porém, dizer que este fanatismo religioso foi a causa única desta tragédia, como colocou Arnaldo Jabor em sua coluna no Jornal da globo, seria no mínimo hipocrisia. O extremismo cristão foi apenas uma forma de obter consolo após a morte, uma forma de suavizar e justificar para si mesmo o ato que estava prestes a cometer; encobrindo assim os reais motivos que o levaram a isso, motivos que talvez até ele mesmo desconhecesse e ignorasse o modo como agiam em sua personalidade, em sua mente e em seu relacionamento com o mundo e com as pessoas. Não acredito que haja uma causa única para isso que aconteceu em realengo, mas sim que há uma combinação de fatores que propiciaram este acontecimento horrível. Primeiro que não estamos protegendo nossas crianças de um modo realmente eficaz (como acabei de descrever acima) nem dentro nem fora das escolas. Muitos jovens são espancados e humilhados diariamente dentro do próprio espaço escolar; todas as gerações passaram por isso e continuam passando. Tornou-se cultural em nossa passagem pela escola ter um coleguinha que nos humilha com seu sarcasmo ácido e sem graça na frente de toda a turma; que nos espanca enquanto sorri satisfeito como dono da atenção que busca constantemente para si, admirado pelos olhares de todos que estão ao redor. As diversas formas de violência física e moral estão dentro das próprias escolas, está sendo praticada pelos próprios alunos e não existem medidas punitivas ou sócio-educativas que olhem com mais rigor para este tipo de acontecimento em nossas escolas. Passamos a maior parte de nossa vida, desde a tenra infância, dentro de uma escola; seria estupidez pensar que tanta humilhação e violência sofrida durante todos estes anos em que estamos formando nossa personalidade, nosso caráter, nossa percepção de mundo, nosso modo de lhe dar com as pessoas, com a vida e com os inúmeros problemas que a vida naturalmente nos impõe, não nos afetaria enquanto seres humanos aptos a viverem em sociedade. Agora somemos isto a distúrbios psico-patológicos que dão um perfil sociopata ao comportamento de um indivíduo; comportamento que até é percebido por colegas de classe, familiares e professores, mas que é simplesmente ignorado não só por estas pessoas, mas principalmente pelo estado que é incapaz de investir em políticas públicas sérias que prestem uma assistência real a estes jovens dentro das escolas, tanto no que diz respeito a uma saúde psicológica quanto no que diz respeito à integridade moral e física destas crianças, e teremos então um ser humano apto a perder seu mínimo equilíbrio a qualquer momento; teremos então um ser humano capaz de cometer uma atrocidade desta natureza.
Agora eu vejo na TV vários psicólogos, pedagogos, especialistas, todos preocupados em prestar assistência integral e individual a cada um dos sobreviventes. Porque será que este trabalho, este acompanhamento não foi feito antes? Diariamente na escola Tasso de Oliveira? Se isto tivesse sido feito antes, talvez estes jovens que estão sendo acompanhados psicologicamente agora não fossem sobreviventes de uma tragédia, mas apenas crianças normais sem um trauma destas proporções que lhes acompanhará para o resto de suas vidas; talvez Wellington Menezes nem fosse um assassino, mas um jovem devidamente assistido e orientado lutando para aprender a lidar com seus problemas.
Não estou dizendo que a adoção de medidas como estas vão acabar definitivamente com acontecimentos deste tipo, mas se podemos diminuir a probabilidade de isto voltar a acontecer, por que não fazer? Esta é apenas uma mera opinião que busca deixar sempre acesa a luz de um debate tão importante; e tenho certeza que os grandes teóricos da psicologia, da pedagogia e da educação, enfim, acredito que é um debate que diz respeito a todos os cidadãos, e especialmente aos profissionais que estão, de alguma forma, ligados à área da educação poderão (e tenho certeza de que irão) contribuir muito mais com esta discussão tão importante para todos nós. Ainda quero crer que esta chacina em realengo trata-se de uma fatalidade, de um caso isolado. Porém, também vejo nisto um pensamento perigoso que pode nos levar ao comodismo e à percepção de que o sistema educacional não está tão ruim assim, atitudes que levariam ao retardamento de mudanças que, a meu ver, são tão urgentes em nossa sociedade.
Rever as leis sobre desarmamento e porte de armas seria fantástico se estas leis realmente funcionassem. Um dos grandes problemas neste país é que as leis simplesmente não “pegam”. As únicas leis que realmente funcionam são aquelas que beneficiam, direta ou indiretamente, as pessoas que as criaram. Temos uma constituição belíssima que, se algum dia sair realmente do papel, fará deste país uma nação plenamente forte, consciente e cidadã. Penso que se os esforços, neste momento, fossem direcionados unicamente para fazer valer de fato as leis que já existem, então teremos dado um grande passo; criar novas leis que não funcionam a cada novo acontecimento desta natureza parece-me uma perda de tempo.
É um erro pensar que seguranças, guaritas, portões eletrônicos e câmeras de segurança vão solucionar o problema. Pois, como tentei mostrar à pouco, a violência está dentro das próprias escolas, é praticada, muitas vezes, pelos próprios alunos; um sistema deste tipo pode impedir que um aluno entre com uma arma, mas não vai impedir que um aluno agrida o outro dentro da sala de aula com um lápis. É preciso mudar a consciência acima de tudo, investir no ser humano, tê-lo como foco principal de toda e qualquer medida a ser tomada; enquanto continuarmos tentando resolver os problemas modificando as estruturas e não investindo no ser humano, que é o agente principal de modificações (boas ou más) no interior de qualquer realidade, continuaremos realizando um trabalho de Sísifo: vão e improfícuo, pois muda-se a estrutura, mas a mentalidade não muda. Continuaremos trabalhando para construir muros e grades eletrificadas que nos separam de nós mesmos e do mundo, nos envolvendo em uma sensação ilusória de segurança que pode se dissipar a qualquer momento, com um tiro… Quando menos esperamos. O sistema educacional é um reflexo fiel da sociedade em que ele está inserido, e enquanto não assumirmos todos dentro de uma comunidade o papel de educadores e protetores destes jovens, enquanto continuarmos delegando a função de educar única e exclusivamente à escola; enquanto não nos modificarmos socialmente e não nos compreendermos como sociedade educadora, a realidade educacional tão pouco mudará.
Alexandre Pimentel (Aluno do curso de letras da UEA)