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Saudade

Saudade é uma palavra complicada. Começa que os especialistas dizem não ter ela correspondência exata em nenhuma outra língua, viva ou morta. No latim, por exemplo, de onde é originária, sua raiz é “solitate”, que está mais para “solidão”, tanto que desembocou na “soledad” espanhola.

Os dicionaristas a definem vagamente, com aquela nebulosidade inerente ao próprio conceito. Assim é que para Aurélio ela é “lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia”, enquanto, para Houaiss, saudade é “sentimento melancólico devido ao afastamento de uma pessoa, uma coisa ou um lugar, ou à ausência de experiências prazerosas já vividas”.

Mas parece não ser só isso, pelo menos se levarmos em conta a criatividade do cancioneiro popular. Já houve quem dissesse que “a saudade é calculada em algarismos também: distância multiplicada pelo fator querer bem”. E há o caso do trovador que fez seu “rancho na beira do rio”, aonde foi morar com seu amor. E prossegue, triste: “Mas agora meu bem foi embora/foi embora e não sei se vai voltar/E a saudade nas noites de frio/em meu peito vazio virá se aninhar”. O refrão chora ao som plangente do violão: “A saudade mata a gente, morena/A saudade é dor pungente, morena”.

É, não dá para ficar só nos dicionários. Não contêm eles, nem poderiam conter, esta singela afirmativa: “Saudade, dor que é remédio/Remédio que aumenta a dor”. Isso para lembrar que, no assunto, pesado mesmo pegou o grande Chico Buarque de Holanda que assim definiu a tal saudade: “É arrumar o quarto de um filho que morreu”. Que coisa brutalmente grandiosa. Que experiência terrível há de ser e quantos poderão a ela resistir!

Porque, em matéria de filhos, não é nem necessário que ocorra essa coisa sórdida que nos traz a inimiga das gentes. É suficiente o curso da própria vida. Os filhos crescem e se vão. É a ordem natural das coisas. Sempre foi assim e, suponho, assim será até à consumação dos séculos.

Que seja normal. Eu aceito o argumento. Mas a normalidade não tem o condão de preencher o vazio dos espaços que deixam e onde outrora brincavam e brigavam, lépidos e fagueiros. Fica só a saudade. De novo ela, persistente, onipresente, diáfana, mas implacável, a ditar as regras de sua ditadura sentimental.

Que fazer? Nada. Nada existe que a humana condição possa fazer diante dos fatos da vida. O que não tem remédio, remediado está, é truísmo de sabedoria secular. Por isso, conviver com a saudade é, talvez, o caminho único que resta para aqueles sobre os quais ela resolve se impor. Lágrimas, muitas ou poucas, ajudam nesse comportamento. Não são bálsamo, porque não têm efeito anestésico, mas, pelo menos, servem temporariamente como válvula de escape.

Uma coisa lhes digo: não levo nenhuma saudade (seja ela o que for) do ano que hoje finda.

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